O Bom pastor e seus comentários

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sábado, 26 de março de 2011

A origem da Alma No Indivíduo.


Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia-GO
Classe de Doutrina II – Quem É O Homem Para Que Dele Te Lembres?
Professores: Pr. Hélio O. Silva e Presb. Baltazar M. Morais Jr.
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Aula 06 = A Origem da Alma no Indivíduo 27/03/2011.
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1. PREEXISTENCIALISMO.
Alguns teólogos especulativos da escola alexandrina defendiam que as almas dos homens existiam num estado anterior, e que certas ocorrências naquele primeiro estado explicam a condição em que essas almas se acham agora.
Objeções:
(a) É absolutamente vazia de bases bíblicas e filosóficas e, pelo menos nalgumas de suas formas, baseia-se no dualismo de matéria e espírito como ensinado na filosofia pagã, fazendo da ligação da alma com o corpo uma punição para a alma.
(b) Faz do corpo uma coisa acidental porque a alma estava inicialmente sem o corpo, recebendo-o posteriormente. O homem era completo sem o corpo. Isto elimina virtualmente a distinção entre o homem e os anjos.
(c) Destrói a unidade da raça humana, pois presume que todas as almas individuais existiam muito antes de entrarem na vida presente. Elas não constituem uma raça. (d) Não acha suporte na consciência do homem. O homem absolutamente não tem consciência de uma tal existência anterior; tampouco sente que o corpo é uma prisão ou um lugar de punição para a alma. De fato, ele teme a separação de corpo e alma como uma coisa antinatural.

2. TRADUCIONISMO.
De acordo com este conceito, a alma do homem, de semelhante modo ao corpo, origina-se mediante reprodução, ou seja, as almas dos homens são reproduzidas juntamente com os corpos pela geração natural e, portanto, são transmitidas pelos pais aos filhos. Desde os dias de Lutero o traducionismo tem sido o conceito geralmente aceito pela Igreja Luterana. Entre os reformados contemporâneos (calvinistas), tem o apoio de H.B. Smith e W. G. T. Shedd. E no congregacionalismo: A. H. Strong.

a. Argumentos em favor do traducionismo.
(1) A linguagem descritiva bíblica parece favorecer o traducianismo:
(a) Deus soprou uma única vez nas narinas no homem o fôlego de vida, e depois deixou que o homem reproduzisse a espécie, Gn 1.28; 2.7;
(b) a criação da alma de Eva estava incluída na de Adão, desde que se diz que ela foi feita “do homem” (1 Co 11.8); nada se diz acerca da criação da sua alma separadamente em Gn 2.23;
(c) Deus cessou a obra de criação depois de haver feito o homem, Gn 2.2; e
(d) Os descendentes estão nos lombos dos seus pais, Gn 46.26; Hb 7.9,10. E ainda Jo 3.6; 1.13; Rm 1.3; At 17.26.
(2) tem o apoio da analogia da vida vegetal e animal, em que o aumento numérico é assegurado, não por criação imediata direta, mas pela derivação natural de novos indivíduos de um tronco paterno. Porém veja o Sl 104.30.
(3) A teoria também tem apoio na herança genética de peculiaridades mentais e tipos familiais (traços físicos e mentais individuais).
(4) Finalmente, ela parece oferecer uma base mais simples para a explicação da herança da depravação moral e espiritual, que é assunto da alma, e não do corpo.

b. Objeções ao traducionismo.
(1) É contrária à doutrina filosófica da simplicidade da alma. A alma é uma substância puramente espiritual que não admite divisão. A reprodução da alma pareceria implicar que a alma do filho se separa de algum modo da alma dos pais. Além disso, levanta-se a questão se ela se origina da alma do pai ou da mãe. Ou provém de ambos? Sendo assim, não é um composto?
(2) para evitar a dificuldade recém-mencionada, esse conceito tem que recorrer a uma destas três teorias:
(a) que a alma da criança teve uma existência anterior, uma espécie de preexistência;
(b) que a alma está potencialmente presente na semente do homem ou da mulher ou de ambos, o que é materialismo; ou
(c) que a alma é produzida, isto é, criada de algum modo pelos pais, o que faz deles criadores, em certo sentido.
(3) O traducionismo parte do pressuposto de que, depois da criação original, Deus só age mediatamente, uma vez que depois dos seis dias da criação a Sua obra criadora cessou.
(4) Geralmente se alia à teoria do realismo, uma vez que é o único modo pelo qual pode explicar a culpa original.
(5) Finalmente, na forma imediatamente acima indicada, a teoria leva a dificuldades insuperáveis na cristologia. Se em Adão a natureza humana pecou globalmente, e esse pecado foi, portanto, o verdadeiro pecado de cada parte dessa natureza humana, não se pode fugir à conclusão de que a natureza humana de Cristo também foi pecadora e culpada, porque teria pecado de fato em Adão.

3. CRIACIONISMO.
A teoria do criacionismo sustenta que Deus cria uma nova alma por ocasião do nascimento de cada indivíduo. Deste modo, cada alma individual deve ser considerada como uma imediata criação de Deus, devendo a sua origem a um ato criador direto. A alma é, supostamente, uma criatura pura, mas unida a um corpo depravado. Não significa necessariamente que a alma é criada primeiro, separadamente do corpo, corrompendo-se depois pelo contato com o corpo, o que pareceria pressupor que o pecado é algo somente físico.

a. Argumentos em favor do criacionismo. São as seguintes, as mais importantes considerações em favor dessa teoria:
(1) É mais coerente com as descrições gerais da Escritura, que o traducionismo. O relato original da criação indica marcante distinção entre a criação do corpo e a da alma. Aquele é tomado da terra, ao passo que esta vem diretamente de Deus. Esta distinção se mantém através de toda a Bíblia, onde o corpo e a alma não somente são apresentados como substâncias diferentes, mas também como tendo origens diferentes, Ec 12.7; Is 42.5; Zc 12.1; Hb 12.9. Cf. Nm 16.22. Da passagem de Hebreus, mesmo Delitzch, apesar de traducionista, diz: “Dificilmente poderá haver um texto-prova mais clássico em favor do criacionismo”.
(2) É claramente mais coerente com a natureza da alma humana, que o traducionismo. A natureza imaterial e espiritual e, portanto indivisível, da alma do homem, geralmente admitida por todos os cristãos, é expressamente reconhecida pelo criacionismo.
(3) Evita os perigos latentes que corre o traducionismo na área da cristologia.

b. Objeções ao criacionismo. O criacionismo expõe-se às seguintes objeções:
(1) A objeção mais séria é exposta por Strong com as seguintes palavras: “Se essa teoria admite que a alma era possuída originalmente de tendências depravadas, faz de Deus o autor direto do mal moral; se ela sustenta que a alma foi criada pura, faz de Deus indiretamente o autor do mal moral, ensinando que Ele introduz essa alma pura num corpo que inevitavelmente a corromperia”. Esta é, indubitavelmente, uma séria dificuldade, e geralmente é considerada como o argumento decisivo contra o criacionismo. Agostinho já tinha chamado a atenção para o fato de que o criacionista devia procurar evitar este risco. Deve-se ter em mente, porém, que, ao contrário do traducionista, o criacionista não considera o pecado original inteiramente como matéria de herança. Os descendentes de Adão são pecadores, não como resultado de serem postos em contato com um corpo pecaminoso, mas em virtude do fato de que Deus lhes imputa a desobediência original de Adão. E é por essa razão que Deus retira deles a justiça original, seguindo-se naturalmente a corrupção do pecado.
(2) O criacionismo considera que o pai terreno gera somente o corpo do seu filho – certamente não a parte mais importante da criança – e, portanto, não explica o reaparecimento das características morais e mentais dos pais nos filhos.
(3) O criacionismo não está em harmonia com a relação atual de Deus com o mundo e com a Sua maneira de agir nele, visto ensinar uma atividade criadora direta de Deus, e assim ignora o fato de que Deus presentemente age por meio de causas secundárias e cessou Sua obra criadora. Esta objeção não é muito grave para os que não têm uma concepção deísta do mundo. É uma pressuposição gratuita, dizer que Deus cessou a Sua atividade criadora no mundo.

OBSERVAÇÕES FINAIS.
a. Requer-se cautela ao falar sobre este assunto. Deve-se admitir que os argumentos de ambos os lados são muito equilibrados, apresentando peso igual. A Bíblia não faz nenhuma afirmação direta a respeito da origem da alma do homem, exceto no caso de Adão. Não pretendamos sabedoria acima daquilo que está escrito.

b. Alguma forma de criacionismo merece preferência. Parece-nos que o criacionismo merece preferência porque (1) não encontra a insuperável dificuldade filosófica que pesa sobre o traducionismo; (2) evita os erros cristológicos que o traducionismo envolve; e (3) harmoniza-se mais com a nossa idéia de aliança.

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Bibliografia: Louis Berkhof, Teologia Sistemática, ECC, p. 188-194./ Heber Carlos de Campos, Antropologia Bíblica, p. 26-29 (não publicado) / M. E. Osterhaven, “Alma”; Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, vol.1, Vida Nova, p.48,49.

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