O Bom pastor e seus comentários

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sábado, 12 de março de 2011

Aula 04 = A Pessoa Única


Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia-GO
Classe de Doutrina II – Quem É O Homem Para Que Dele Te Lembres?
Professores: Pr. Hélio O. Silva e Presb. Baltazar M. Morais Jr.
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Aula 04 = A Pessoa Única. 13/03/2011.
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Na primeira aula afirmamos que Deus o homem conforme a sua imagem e semelhança e o colocou numa posição exaltada, todavia, Deus não criou o homem para viver só. Ele criou um homem e uma mulher e os ordenou que povoassem e dominassem a terra que ele criou. Todavia, Deus os criou como pessoas diferentes e únicas. Isso nos leva a pensar sobre o que a Bíblia ensina sobre a dignidade humana.
Por causa da vida em sociedade aprendemos que a experiência de vida de cada pessoa deve ser submetida à experiência de vida da sociedade mais ampla, em que ele precisa e espera ser formado e disciplinado por objetivos e ideais que superam sua experiência pessoal. Essa relação do pessoal com o coletivo pode gerar uma submissão opressiva onde e quando a sua dignidade pessoal sofrerá danos por causa das exigências do Estado, da moda ou das convenções sociais. Mas também pode gerar uma exagerada ênfase na importância do indivíduo a ponto de provocar o desrespeito e do abuso. Como podemos entender a dignidade humana aos olhos de Deus?

1. A Dignidade Humana
Aos olhos de Deus cada pessoa é única e preciosa porque foi criada à sua imagem e semelhança. Esse é o fundamento da proibição do assassinato, e, por mais repulsivo que nos pareça, da pena de morte (Gn 9.6 = “Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem”). A declaração bíblica declara da forma mais forte possível a dignidade e importância da pessoa e da raça humana para Deus. A guarda do sábado também tem o seu fundamento na preservação da vida humana (Ex 20.10), porque visa preservar o homem da idolatria desonrosa do esforço humano e exploração do trabalho alheio.
Essa dignificação da vida como única e preciosa é vista de várias formas no Antigo Testamento: no zelo pela vida dos pais (Ex 21.15); de um escravo (Ex 21.20,21), de um feto (Ex 21.22-24) e de qualquer estranho (Ex 21.12). Essas leis contra a violência escritas em Êxodo 21 mostram que cada pessoa tem valor único, mas esse valor deve ser avaliado em função da contribuição que é capaz de fazer à sociedade. Esse valor também precisa ser avaliado de forma inversa pela contribuição que já foi dada: Os pais devem ser honrados por terem sido o meio de Deus ter nos trazido à vida (Ex 20.12; 21.17). Os idosos devem ser respeitados porque já contribuíram com a sua parte (Lv 19.32), visto que a sabedoria comumente anda de mãos dadas com a sabedoria e a insolência contra o idoso é presságio do infortúnio (II Rs 2.23-25, Is 3.5). Nenhuma distinção deve ser feita entre as pessoas, porque Deus é o juiz e não faz acepção de pessoas quanto à justiça (Dt 10.17,18).
Cristo mostra a mesma preocupação ao ensinar no Sermão do Monte que as nossas ações referentes aos outros são inseparavelmente relacionadas às nossas ações a respeito de nós mesmos (Mt 5.21-48) e que o meu próximo não somente aquele que precisa da minha ajuda, mas aquele que me ajuda mesmo quando não lhe dou o devido valor e reconhecimento como na parábola do Bom Samaritano (Lc 10.29-37), onde o judeu ferido por outros judeus salteadores, foi socorrido por um samaritano que ele odiava. A parábola precisa ser interpretada por essas duas vias. A afirmação mais surpreendente de Cristo quanto a isso é que quem socorre ao necessitado o faz a Deus (Mt 25.34-40). A dignidade humana vem da dignidade absoluta de Deus ao criarmos à sua imagem e semelhança. A conclusão óbvia é que a afirmação da dignidade humana pessoal só é compreensível à luz da nossa relação com os outros, e tanto os outros como “eu” somos envolvidos por essa dignidade através de Cristo (Sherlock, p.159).
A dignidade de cada pessoa está fundamentada tanto na criação quanto na nova criação (redenção) em Cristo.

2. A Liberdade Humana.
O conceito de liberdade das escrituras é radicalmente do conceito de liberdade da pós-modernidade. Devido à criação divina não é possível falar de liberdade como “autonomia”, visto que Deus criou o homem para viver num ambiente interativo. Liberdade segundo as escrituras leva em conta de onde ela veio e para onde ela vai.
Tanto o ser humano quanto a sua liberdade são determinados primariamente pelo propósito para o que foram feitos, que é a glorificação de Deus por meio da vida na sua imagem. Viver de outra forma é tão letal quanto um pássaro querer voar no mar ou um peixe nadar no ar.
O conceito de autonomia preconiza a tentativa humana de libertar-se do propósito bíblico da criação, que é viver para Deus. Vivendo no pecado e escravo deste o homem luta por ser livre dos sistemas que ele mesmo desenvolveu tentando viver livre de Deus. Liberdade de sistemas econômicos opressivos, de famílias manipuladoras, da incapacidade pessoal e de problemas psicológicos por mais justas que sejam, refletem as lutas humanas contra tudo o que ele mesmo criou fugindo de viver para Deus.
Deus deu a Lei, por exemplo, para sustentar a dignidade humana, mas nós a transformamos em um conjunto de regras que tentamos manipular para tentar controlar nosso destino e a vida dos outros. É por isso que o conceito bíblico de pecado é rebelião contra Deus e a sua palavra (voltaremos a esse tema mais adiante), e a redenção em Cristo é descrita como salvação e como libertação do pecado e sua condenação (Jo 8.31-36).
Nas escrituras, viver de forma livre é viver como servos de Deus! (Rm 6.17-22). Dessa forma fica claro que Deus não criou o homem para a autonomia, mas para a cooperação. Ele foi criado para participar da obra criadora e criativa de Deus como um administrador que usufruiria de tudo, mas também como alguém que prestaria contas de sua livre ação a Deus. Todas as decisões humanas seriam livres debaixo do soberano governo do criador.
É por isso que a Bíblia fala da dignidade humana, mas não fala de direitos humanos. Porque tratar de direitos humanos à parte da afirmação da dignidade de terceiros é um profundo egoísmo. A dignidade e o mérito de cada um e a conseqüente prática da justiça acontecem dentro do conceito bíblico de vida em comunidade onde e quando se deve servir uns aos outros por amor ao Deus criador, de quem todos somos igualmente servos.
Esse conceito de liberdade, segundo as escrituras dignifica o homem, mas a entrada do pecado na experiência humana irá danificar a sua aplicação, de modo que as escolhas humanas não serão mais para glorificar a Deus e sim uma tentativa de glorificar a si mesmo.
Agostinho, escrevendo contra Pelágio, afirmou: “Cada escolha (de Adão) entre alternativas era feita a serviço de Deus. Então adão escolheu (voluntas – vontade) uma criatura (ele mesmo!) em vez de Deus como base de sua felicidade... e foi constituído como alguém que não ama a Deus, alguém que ama a si mesmo... E essa é uma situação na qual não se é livre para escolher... A dinâmica da imago dei (imagem de Deus) é tal que se a imagem é distorcida, a pessoa é radicalmente deformada e escravizada (Sherlock, p.163).
Distorcer a imagem de Deus significou para o homem colocar em perigo sua dignidade diante de si mesmo e vender sua liberdade á escravidão do pecado. Entregar-se a Cristo é a única forma de retomar seu valor e reencontrar a liberdade que Deus projetou para a humanidade.

Conclusão:
Os conceitos bíblicos de dignidade e liberdade trazem profundas implicações e aplicações para a nossa vida prática: Significa que devemos tratar com respeito e igualdade todas as raças, tais como os estrangeiros que vivem entre nós. Devemos tratar com dignidade e proteger os idosos, os mentalmente retardados; os gravemente doentes, os fetos no ventre materno.
Se diminuirmos o valor desses, diminuiremos o valor de todos os demais e, em função do pecado, os trataremos inferiores e como menos do são para Deus. Glorificar a Deus é também reconhecê-lo no próximo como feito à sua imagem e semelhança por entender que ninguém mais se parece tanto com Deus do que nós, a raça humana.

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Bibliografia: Charles Sherlock, A Doutrina da Humanidade – Série Teologia Cristã, ECC, p.157-174. R. K. Harrison, Levítico, Introdução e Comentário, Vida Nova/Mundo Cristão, p.187.

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