O Bom pastor e seus comentários

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quarta-feira, 30 de março de 2011

Exposição 07 = Gálatas 2.15-21 - Justificação Pela Fé Somente (30/03/2011).


Introdução:
Paulo finalmente nos apresenta a palavra chave da epístola e de todo o evangelho da graça: JUSTIFICAÇÃO (v. 16,17,21).
A doutrina da justificação pela fé somente é a boa nova (evangelho) de que homens e mulheres pecadores são aceitos por Deus, não com base nas suas obras de obediência, mas através de um simples ato de fé (confiança) em Jesus Cristo.
A tomada de consciência dessa provisão de Deus em Cristo a nosso favor é o principal, mais importante, mais especial artigo da nossa fé cristã. A justificação pela fé é a verdade divina que transforma as pessoas em cristãos.
É o artigo pelo qual uma igreja fica de pé ou cai na presença de Deus. Por isso é tão perigosos para a fé tentar modificar diminuindo ou acrescentando detalhes humanos ao que Deus fez em Cristo por nós.

Contexto:
Paulo ainda está falando a Pedro na presença de todos em Antioquia.
Paulo está finalizando seu argumento histórico contra a alegação judaizante de que a justificação do pecador só se dará com a sua cooperação com Deus mediante uma obediência pessoal à Lei divina; e que Paulo e sua pregação do evangelho da graça estão equivocados por serem uma alteração vil do verdadeiro evangelho.
Paulo argumentou que nem ele e nem seu evangelho são impostores:
Primeiro: porque ele não o recebeu de homens e nem por meio de homens, mas diretamente de Cristo. Segundo: Porque o evangelho que ele prega é o mesmo pregado pelos demais apóstolos de Cristo. Portanto, o evangelho da graça não é nem inferior e nem diferente, mas é o mesmo evangelho pregado pelos verdadeiros apóstolos de Cristo.
Tendo afirmado isso, Paulo chega ao centro do problema judaizante, eles confiavam em suas próprias obras para serem aceitos e perdoados por Deus e insultavam a Cristo julgando o sacrifício de Cristo insuficiente para salvar.

Proposição:
Paulo afirma a Pedro categoricamente: A Justificação é pela fé somente! Ele constrói o seu argumento com duas afirmações sobre a justificação:

I) A JUSTIFICAÇÃO É PELA FÉ SOMENTE (V. 15-18):

a)Três afirmações contundentes sobre a justificação (v.15,16):
1ª) O homem não é justificado pelas obras da Lei, mas pela fé em Cristo (declaração geral).
Paulo faz uma declaração geral: “o homem” ou a mulher não são justificados por obras da lei.

 O que é justificação?
Justificação é um termo legal tomado emprestado dos tribunais. É o exato oposto de “condenação” (Dt 25.1; Pv 17.15; Rm 8.33,34). “Condenar é declarar uma pessoa culpada. “justificar” é declará-la sem culpa, inocente ou justa. Na Bíblia refere-se ao ato imerecido do favor divino através do qual ele aceita o pecador na sua presença perdoando-o e isentando-o de culpa por tratá-lo como justo com base nos méritos de Cristo.
Essa doutrina deixa claro que Deus é justo e nós não, e que a única forma de podermos ter e manter comunhão com Deus é pela mediação de Cristo em trazer Deus a nós pela graça e levar-nos a Deus pelo perdão mediante o seu sacrifício por nós na cruz.
Como o pecador condenado pode ser justo na presença de Deus? A reposta de Paulo é: Sendo justificado pelo sacrifício de Cristo e sendo unido a ele eternamente.

 O que são as obras da Lei?
A Lei é a soma total dos mandamentos de Deus, logo, as “obras da lei” são os atos praticados em obediência a ela. Os judeus e os judaizantes achavam que poderiam ser justificados na presença de Deus desse modo. Eles criam que precisamos fazer tudo que a Lei ordena e evitar tudo que a Lei proíbe para sermos perdoados por Deus e aceitos por ele. Era preciso guardar toda a lei moral, mas também toda a lei cerimonial. O caso é que para um pecador isso era impossível!
Paulo diz que tentar ser salvo por esse caminho é o mesmo que tentar estabelecer a própria justiça (Rm 10.3). Esse é o princípio religioso do mundo todo, exceto no cristianismo. Esse princípio lisonjeia o homem porque afirma que se ele melhorar um pouco mais e se esforçar um pouco mais, conseguirá a sua própria salvação. Nessa religião Cristo é visto como o caminho da salvação, mas não como o salvador!
Mas o fato é que ninguém será salvo dessa maneira, porque ninguém consegue obedecer integralmente à Lei! (Rm 3.23 = onde carecer significa: “necessitar, precisar muito”; “não alcançar, ser incapaz” e “ser destituído de, cair de”). Nem homem nem mulher serão justificados por esse caminho.

2ª) Nós temos crido em Cristo para sermos justificados por ele (declaração pessoal).

 O que significa crer em Cristo?
Observe que Paulo muda do geral para o particular e pessoal (nós). Ele se refere a si mesmo e a Pedro. O que realmente precisamos para sermos justificados é reconhecer o nosso pecado, a nossa incapacidade, a nossa necessidade do favor de Deus e arrependermo-nos de nossa auto-afirmação de justiça própria e depositar toda a nossa confiança em Cristo para nos salvar.
Observe ainda que a fé em Cristo não é apenas uma crença intelectual, mas um compromisso pessoal, visto que cremos em (eis = “para dentro de”) Cristo, como um ato de entrega pessoal e não apenas de aceitação de uma fato ocorrido. Crer em Cristo é ir a ele em busca de refúgio e de misericórdia quanto aos nossos muitos pecados.
Nossa certeza acerca do evangelho não é meramente intelectual, mas uma experiência pessoal da qual podemos “saber” a respeito e testemunhar publicamente.

3ª) Ninguém será justificado por obras da Lei (declaração universal).
A última afirmação é uma declaração universal. Essa afirmação está feita no Salmo 143.2 e Paulo a repete em Romanos 3.20. Ela é excludente, ou seja, afirma que absolutamente “qualquer pessoa e toda pessoa” não poderá chegar até à presença de Deus tentando fazê-lo puxando o carrinho da justiça própria.

b) Uma resposta à acusação judaizante de antinomianismo: Cristo não é ministro do pecado (v.17,18).
Os versos 17 e 18 são muito difíceis de interpretar. Seguiremos um resumo do argumento do Dr. John Stott (A Mensagem de Gálatas, p.62):
Os judaizantes afirmavam que a doutrina da graça de Paulo era perigosa, porque, segundo eles enfraquecia o senso moral do homem, encorajando-o a permanecer no pecado e a transgredir a lei de Deus. Esse pensamento é comumente chamado de “antinomianismo” e se baseia na seguinte declaração: “_Se Deus justifica pessoas más, de que vale ser bom?” O problema com o antinomismo é que ele abre a porta para a libertinagem.

Paulo responde que o evangelho não é antinomianista de forma nenhuma, pois se depois da justificação continuamos pecando a falta é nossa e não de Cristo. Ninguém pode culpar a Cristo, pois quem pratica o pecado somos nós. A graça justifica o pecador, não o pecado.
Então, apresenta o seu segundo argumento a favor da justificação pela fé somente:

II) O CRISTÃO JUSTIFICADO FOI UNIDO VITALMENTE A CRISTO (V.19-21):

A justificação não é uma ficção legal, que muda o status do homem sem mudar o seu caráter. Paulo argumento que somos ligados vitalmente a Cristo na justificação: Somos justificados por Cristo, mas também somos justificados em Cristo. A pessoa que foi unida a Cristo na justificação jamais será a mesma pessoa! Voltar à velha vida é um contra-senso, pois ele foi introduzido em uma nova vida.
Qual foi então a espantosa mudança que aconteceu após a justificação? Paulo responde por meio de mais 4 afirmações cruzadas: Fomos mortos para a Lei e crucificados com Cristo; Agora vivemos para Deus e Cristo vive em nós!a)

a) Quatro afirmações sobre a nossa união com Cristo:
1. Fomos mortos para a Lei e estamos crucificados com Cristo.
Quando fomos unidos a Cristo em sua morte nossa vida antiga acaba, seno ridículo sugerir que possamos retornar a ela. Nossa velha natureza foi crucificada e embora possamos vir a pecar, esse não será mais o nosso desejo, porque uma nova semente foi plantada em nós: Cristo habita em nós por meio do Espírito Santo (5.24-26).
Morrer para a Lei significa não ter mais a lei como princípio orientador da vida, por isso precisa ser interpretada em parelho com a frase que Paulo diz em seguida.

2. A fim de vivermos para Deus e Cristo vive em nós.
 Vida pela fé em Cristo.
 Ele nos amou e se entregou por nós,
Viver para Deus é o resultado pretendido com a morte para a Lei e significa vida sob o controle de Deus, para a honra do seu nome. Fomos perdoados para vivermos uma nova vida e não para termos o direito de continuar a pecar (5.13). Tornamo-nos livres em Cristo e não libertinos em Cristo! O legalismo não pode produzir vida em nós, só a graça de Deus. Esse será o assunto de Paulo mais adiante no capítulo 3.
Isso acontece porque Deus pessoalmente habita em nós. Cristo habita em nós! Ele o faz por meio do Espírito Santo.
Cristo se entregou por nós e agora vive em nós, tornando completamente pessoal todo o nosso relacionamento com ele. Nenhum cristão que tenha assimilado essas verdades do evangelho poderia cogitar retornar à velha vida. Caso isso acontecesse, ficaria claro que essa pessoa ainda não teria conhecido a Cristo pessoalmente sendo justificado por ele.
A nossa união com Cristo não é apenas mais um passo na nossa redenção, mas é o centro e o círculo de toda a existência humana. Estar em Cristo é o ponto central da mediação de Cristo a nosso favor no Evangelho (Ef 1.3-14):
 Inicialmente fomos unidos a Cristo na regeneração (Ef 2.4,5);
 Fomos justificados e somos santificados nessa união com Cristo (I Co 1.30);
 Vivemos e crescemos nessa união pela fé (Gl 2.20);
 Perseveramos na vida de fé por causa dessa nossa união com Cristo (Jo 10.27,28);
 Morremos em Cristo e ressuscitamos em Cristo (Rm 14.8; Cl 3.1);
 Seremos eternamente glorificados em Cristo (I Ts 4.16).

Para Paulo, é essa união vital com Cristo que mantém o equilíbrio entre os aspectos legal e vital do evangelho. Estar em Cristo é ter Cristo para nós, que se ofereceu e se sacrificou por nós perdoando-nos de nossos pecados. Estar em Cristo é ter Cristo em nós, concedendo-nos a vida eterna com ele.

b) O Argumento de Paulo contra os judaizantes: Se a justiça é mediante a Lei, Cristo morreu em vão
 Não anulamos a graça de Deus.
Paulo reagiu na seção anterior à tentativa dos judaizantes de derrubar a doutrina da justificação pela fé somente. Agora ele sai da defensiva e parte para a ofensiva e acusa os judaizantes de anularem a graça de Deus querendo salvarem-se por meio das obras da Lei.
Os dois alicerces da fé cristã são a graça de Deus e a morte de Cristo. Fé cristã é fé depositada no Cristo crucificado e ressurreto a nosso favor (Rm 4.25). Buscar o caminho da salvação pelas obras é solapar a cruz e anular a graça, pois se a salvação vem pelas obras, então a salvação não é pela graça e morte de Cristo foi desnecessária, constituindo-se num terrível equívoco divino! Se nós somos no final das contas somos donos do nosso destino, segue-se que a graça e a morte de Cristo são supérfluas e redundantes.

Aplicações:
1. A maior necessidade do homem é a justificação ou aceitação de Deus.
2. A justificação não por obediência à Lei, mas pela fé em Cristo.
3. Não confiar em Cristo, mas em si mesmo é um insulto à graça de Deus à cruz de Cristo.
4. Ser unido a Cristo na justificação é começar uma vida totalmente nova.

Conclusão: Com base em qual desses caminhos você vai querer viver?

Fortalecendo os Laços - SAF em Revista - Ano 57 Abril-Junho/2011



SAF em Revista ano 57 - Abril a Junho/2011, p.16.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Meu Verso... - Homenagem aos meus alunos do Seminário Presbiteriano de Goiânia (06/08/2002)


O Meu Verso...

O que espero de vocês é que sejam mais do que eu. Que enxerguem mais longe e voem mais alto. A mim me bastará a alegria de ser a mão que os conduziu. A mão que impulsionou o pássaro no seu primeiro vôo.

Espero de vocês que não troquem suas convicções por altos salários, por templos aconchegantes ou por férias inesquecíveis. Espero que não amem mais o conforto do que a cruz.

Espero sinceramente que se tornem pregadores, bons pregadores da Palavra. Daqueles que quando anunciam a novidade do Evangelho façam arder o coração, que despertam as paixões; que motivem as decisões.

Espero que tenham seus olhares no futuro, onde nos encontraremos finalmente com o Senhor, razão do pastorado. Por isso espero que conduzam suas ovelhas ao santo aprisco do Senhor, e que as livrem das garras dos lobos, que são tantos, e tão maus...

Espero que suas lágrimas sejam cura e que carreguem consigo um pouco do brilho apaixonado de seu olhar.

Tenho esperança que perseverem no bom caminho do Senhor Jesus, que nos convidou a todos a segui-lo, andar com Ele, estar com Ele, e pregar...

Espero de vocês a palavra justa, equilibrada, calibrada pelas Escrituras, e não pela eqüidistância tola das comodidades eclesiásticas. A verdade não é um artigo de barganha, de compra e venda. A verdade é Cristo, o fundamento de nossas vidas e aspirações. Nada mais é necessário. Nada mais é exigido, que a fidelidade simples e o amor verdadeiro.

Espero de vocês que sejam pastores, ovelheiros mesmo, e que achem tempo para aprender a sê-lo. Espero que se deixem marcar pelas marcas do pastorado. Que se lembrem das palavras, mas sem deixar de amar. Que suportem a afronta sem deixar de profetizar a verdade. Que se cansem na obra, sem deixar de contemplar a aproximação do Senhor. Que tenham tempo de se assentar a seus pés, e com a mesma admiração ouvi-lo falar na voz de tantos outros pregadores que ele mesmo enviou.

Espero de vocês o que sei que Ele espera de mim. Este é o meu verso. O verso que quero escrever na vida de vocês...

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Exercício de Prática de Pregação. 2º ano do SPBC= 06/08/2002.

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Infelizmente o slideshare não reconheceu a fonte que usei para fazer o ppt, por isso ficou difícil ler alguns versos.
Que fazer...

Cantares 8.7a = Um Amor Que Não Se Apaga (22/07/1997)


Introdução:
O Feitiço de Áquila é um filme que narra a parábola de um amor impossível por causa de um desejo irrealizável. Seu enredo é um feitiço odiável. Uma condenação: Viverem sempre juntos, mas eternamente separados. Durante o dia o moço apaixonado é homem e a moça uma águia. À noite ela é uma linda mulher; ele, um lobo preto perigoso. Somente durante o nascer do sol quase se tocam, então a odiosa transformação ocorre e eles não podem se encontrar. Foram condenados a viverem sempre juntos, mas eternamente separados, porque tanto o lobo como a águia são animais monogâmicos. Esse era o feitiço do feiticeiro.
Muitas pessoas vivem assim no seu casamento. Fazem tudo juntos, mas não conseguem se encontrar. Quando estão prestes a se encontrar, uma vira águia bica e voa, e o outro vira lobo morde e foge.

Contexto:
A Bíblia pinta no livro de Cantares uma realidade diferente. “Cantares celebra a dignidade e a pureza do amor humano. Este fato não tem sido suficientemente enfatizado. Cantares, portanto, é didático e moral em seus propósitos. “Chega até nós, neste mundo pecaminoso, em que a luxúria e a paixão mostram-se por toda a parte, em tentações ferozes que nos assaltam e tentam prostrar-nos, quebrando o padrão de matrimônio dado por Deus”.

Essa é a razão porque o livro não pode ser interpretado alegoricamente ou tipologicamente como se apenas representasse a relação de Cristo com sua igreja. Também não pode ser interpretado como um drama teatral do casamento, mas deve ser interpretado literalmente, ou melhor, naturalmente; entendendo que tudo que nele está escrito expressa e significa a pureza da relação de um homem com uma mulher que vivem seu casamento dentro dos padrões da aliança dada a nós por Deus e abençoada no casamento cristão. “Cantares nos lembra, de maneira particularmente bela, como é puro e nobre o verdadeiro amor”.
 Um amor que resiste a tudo.
 Um amor que ama apaixonadamente, excitadamente; cheio de erotismo e paixão.
 Um amor que se compromete e não se vende por nada.

Coisas que nos levam a perguntar: Por que um livro como este?
Porque Deus gosta do encontro, e criou o homem e a mulher para se encontrarem, se amarem, se unirem e se tornarem uma só carne! (Gn 2.21-25).

Proposição:
O ensino bíblico é claro: É possível viver um amor que não se apaga. Você o tem consigo, e Deus quer despertá-lo de novo, se ele esfriou. Deus quer aquecê-lo, jogar lenha na sua fogueira, e levá-lo a resistir a todas as inundações da vida. Como isso pode se dar?

I – ENTENDA QUE O AMOR ESTÁ SUJEITO A TODO TIPO DE TEMPESTADES.

A vida conjugal não é um mar de rosas. Ela enfrenta “muitas águas”. Existem tempestades sociais, financeiras, falta de saúde, emoções desequilibradas, problemas espirituais...
Quem pode prever o dia da inundação? Quando ela chega, o melhor a fazer é resisti-la juntos.
Ilustração: Uma inundação que vivi há alguns anos atrás. A água veio entrando pela casa toda às 3 horas da manhã. Ao por os pés no chão, tudo estava molhado e a água não parava de entrar! Lutamos até às 7 horas da manhã contra aquela tempestade com rodos, vassouras e enxadas. Somente ao meio dia tudo ficou limpo e a lama suja foi tirada de dentro de casa. Aprendemos muito com aquela chuva. Meu pai pediu à prefeitura para colocar mais uma boca de lobo à frente de nossa casa. Minha mãe e meus irmãos mais velhos fizeram desvios para a enchorrada dentro do quintal. Deu um trabalho danado. Aquela tinha sido a chuva mais forte que enfrentara em toda a minha vida, até então!!!
No casamento, às vezes aprecem problemas difíceis de resolver e deveremos aprender a lutar e resisti-los juntos; lutando e chorando juntos sobre eles até que consigamos controlá-los.

Há três inimigos básicos para controlarmos no casamento:
1 - A perda da comunicação.
Quando marido e esposa não conseguem dialogar mais. Quando conversar parece ser algo inútil e improdutivo. A Bíblia ensina que uma vida cheia do Espírito Santo é uma vida onde as pessoas conversam, “falam”, umas com as outras (Ef 5.18,19). Isso é verdade para tudo na nossa vida cristã, especialmente no casamento.
Ilustração: Todos conhecem a história do casal que estava assentado na praça quando eram apenas namorados. Uma nuvem esconde a lua prateada. A moça suspira: “_ Meu bem, a nuvem encobriu a lua! E o namorado replica: “_É de vergonha da sua beleza, meu amor!”. Anos depois a mesma cena acontece: “_ Meu bem, a nuvem escondeu a lua!” Então o marido responde: “Vamos andando mulher, não vê que vai chover!”
A versão mais recente dessa história aconteceu com um casal de nossa igreja, só que ao contrário. O namorado pousou o ouvido sobre o coração da namorada e disse: “_ Meu bem, o seu coração está batendo!” E ela replicou: “_ Ele suspira de amor por você!”. Dois anos depois de casados a cena se repetiu: “_ Meu bem, o seu coração está batendo!” E ela respondeu com secura: “_ É porque eu estou viva, uai!”
Não deixe a sua comunicação emudecer ou se tornar mecânica. Há muito que conversar e aprender; há muito para viverem juntos!

2 - O esfriamento da relação.
Quando a atração conjugal vira mecânica e o romantismo e a excitação se desviam para outras coisas menos importantes que o cônjuge.
Ilustração: O filme Beleza Americana explora esse tipo de problema na simbologia das flores vermelhas. A esposa transferiu para as flores vermelhas do jardim todo o calor de seu amor que deveria ser dado ao marido! Por isso, sempre que ele fantasiava com uma adolescente colega de sua própria filha, ela estava envolta em flores vermelhas. Quando se transfere o amor, o valor de um sofá de $4.000,00 (quatro mil dólares) se torna mais importante que o romance do marido.
Muitos casais deixam sua relação esfriar porque desviam seu amor para coisas e situações, até mesmo os filhos tornam-se desculpa para esse esfriamento. Cantares mostra um amor diferente, que ama o tempo todo, porque é construído com realismo naquilo que cada um tem de melhor, não no que tem de pior.
Não deixem sua relação conjugal esfriar, há muito espaço para o romantismo dos dois lados do casamento!

3 - A inversão de papéis.
Quando as mulheres querem ser cabeças. Quando os maridos não querem ser cabeças. Quando a profissão assume o lugar dos filhos. Quando não se consegue definir uma estratégia harmônica para a educação dos filhos.
A infidelidade, em muitos casos, é conseqüência direta do agravamento desse quadro.
Contudo, esses inimigos podem ser vencidos quando os canais de comunicação nunca se fecham; quando marido e esposa perseveram nas promessas feitas um ao outro e um pelo outro no dia de seu casamento como a Bíblia ensina, permitindo que Deus edifique a sua casa juntamente com o casal (Sl 127.1).

II – O VERDADEIRO AMOR ALIMENTA UMA RELAÇÃO CRESCENTE.

I Co 13 afirma sem rodeios que o amor jamais acaba. Como experimentá-lo sempre?

a) Desfazer a ilusão do estoque inesgotável
Quando lemos João 2.2 -11, achamos que o vinho nunca vai acabar. Mas é preciso entender que o amor não é “investimento”, é doação, para que ele não se transforme em água. O amor nasce da graciosidade do coração, de um chamado interior que é tão forte como a morte (v.6) e que precisa ser cultivado carinhosamente a cada dia.
Ilustração: Havia uma festa anual numa cidade de interior, onde um grande tonel de vinho era colocado vazio no centro da praça. Todos os moradores deveriam levar uma garrafa de vinho e despejar lá dentro. Um certo senhor achou que uma vez que todos iam levar vinho, não faria mal nenhum se ele apenas levasse água e despejasse lá dentro. Afinal, o vinho diluiria a água e ninguém ia notar. Quando chegou a hora de servir o vinho, só havia água lá dentro. Todos os moradores pensaram como ele. Se não cuidarmos do nosso casamento com zelo, ele vai virar água e não vinho!

b) Avaliar a si mesmo de forma realista para evitar surpresas.
O que está acontecendo comigo? Quando isso começou? O silêncio é a maior panela de pressão dentro do casamento.
Ilustração: Rev. Jeremias Pereira nos disse certa vez que quando o casamento vai bem, o esposo pergunta para a esposa: “_ Eu estou te amando direito?” e a esposa pergunta para o marido: “_ Eu estou me submetendo direito?”. Quando as coisas vão mal no casamento, o esposo fala para a esposa: “_ Você não está sendo submissa!” e a esposa retruca; “_ Você não está me amando direito!”
Apocalipse 2.5 nos diz o que fazer: “Lembra-te de onde caíste e volta à prática das primeiras obras”.

c) Consolidar a amizade conjugal.
Um casamento não é feito somente de erotismo e diversão. Ele é feito tal qual é construída uma casa; com muito trabalho, suor, cansaço e lágrimas. O apaixonado de Cantares chama sua amada de “Minha irmã”. Você pode dizer que a sua esposa é sua melhor amiga? Você pode dizer que o seu marido é seu melhor amigo?
Muitos maridos idosos reclamam da frieza de suas esposas. A amizade na relação não é substituta da paixão, mas o seu mais justo sustento e complemento para aprofundar o companheirismo. Sem companheirismo o sexo não sustenta um casamento. Por outro lado, intimidade dentro do casamento é mais que amizade é cumplicidade sexual e também moral.

Por isso também é preciso:
d)Desenvolver a intimidade em todos os níveis:
Esta é a mensagem central de Cantares.

1) Erotismo - 7.1-8.4.
(7:1) Que formosos são os teus passos dados de sandálias, ó filha do príncipe! Os meneios dos teus quadris são como colares trabalhados por mãos de artista. (2) O teu umbigo é taça redonda, a que não falta bebida; o teu ventre é monte de trigo, cercado de lírios. (3) Os teus dois seios, como duas crias, gêmeas de uma gazela. (4) O teu pescoço, como torre de marfim; os teus olhos são as piscinas de Hesbom, junto à porta de Bate-Rabim; o teu nariz, como a torre do Líbano, que olha para Damasco. (5) A tua cabeça é como o monte Carmelo, a tua cabeleira, como a púrpura; um rei está preso nas tuas tranças. (6) Quão formosa e quão aprazível és, ó amor em delícias! (7) Esse teu porte é semelhante à palmeira, e os teus seios, a seus cachos. (8) Dizia eu: subirei à palmeira, pegarei em seus ramos. Sejam os teus seios como os cachos da vide, e o aroma da tua respiração, como o das maçãs. (9) Os teus beijos são como o bom vinho, vinho que se escoa suavemente para o meu amado, deslizando entre seus lábios e dentes. (10) Eu sou do meu amado, e ele tem saudades de mim. (11) Vem, ó meu amado, saiamos ao campo, passemos as noites nas aldeias. (12) Levantemo-nos cedo de manhã para ir às vinhas; vejamos se florescem as vides, se se abre a flor, se já brotam as romeiras; dar-te-ei ali o meu amor. (13) As mandrágoras exalam o seu perfume, e às nossas portas há toda sorte de excelentes frutos, novos e velhos; eu tos reservei, ó meu amado. (8:1) Tomara fosses como meu irmão, que mamou os seios de minha mãe! Quando te encontrasse na rua, beijar-te-ia, e não me desprezariam! (2) Levar-te-ia e te introduziria na casa de minha mãe, e tu me ensinarias; eu te daria a beber vinho aromático e mosto das minhas romãs. (3) A sua mão esquerda estaria debaixo da minha cabeça, e a sua direita me abraçaria. (4) Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, que não acordeis, nem desperteis o amor, até que este o queira.

2) Compromisso - 8.6,7.
(6) Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura, o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, são veementes labaredas. (7) As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios, afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens da sua casa pelo amor, seria de todo desprezado.

3) Recato e confiança - 8.8-10.
(8) Temos uma irmãzinha que ainda não tem seios; que faremos a esta nossa irmã, no dia em que for pedida? (9) Se ela for um muro, edificaremos sobre ele uma torre de prata; se for uma porta, cercá-la-emos com tábuas de cedro. (10) Eu sou um muro, e os meus seios, como as suas torres; sendo eu assim, fui tida por digna da confiança do meu amado.

4) Saudade e comunhão – 8.13-14.
(13) Ó tu que habitas nos jardins, os companheiros estão atentos para ouvir a tua voz; faze-me, pois, também ouvi-la. (14) Vem depressa, amado meu, faze-te semelhante ao gamo ou ao filho da gazela, que saltam sobre os montes aromáticos.

Conclusão:

Como no filme O Feitiço de Áquila, é possível quebrar o feitiço do feiticeiro e realizar o encontro.
 O encontro acontece dentro da Igreja.
A Igreja é alvo e instrumento da bênção de Cristo. Cristo transformou a água em vinho! E vinho melhor que o anterior! Ele fará mais do que isso por seu casamento; creia!

 O encontro acontece com a morte do feiticeiro.
Qual é o feitiço da sua vida? Falta de comunicação; uma vida sexual fria; a inversão de papeis? Isso tudo pode morrer e mudar quando há perdão e redescoberta do diálogo sincero, sem marcação e sem desconfiança. O primeiro passo é pedir perdão, ganhar a atenção e mostrar a sua submissão a Cristo como ponto de partida para a reconstrução.

 Saibam que as inundações passam, mas enquanto duram, é preciso resisti-la juntos.
Resistam juntos. Custe o que custar, mas, juntos! E Deus abençoará vocês.
Ilustração: Quando aconteceu uma nova inundação algum tempo depois, nossa casa não foi mais invadida até aos quartos. De novo fomos lutar contra ela com rodos, vassouras e enxadas, mas porque depois da luta anterior nos preparamos; dessa vez ela não passou da garagem e fomos mais vitoriosos e ficamos menos cansados. Os mais pequenos já haviam crescido mais e puderam ajudar mais. Estávamos mais maduros e mais preparados. Quando o sol nasceu, tudo já estava limpo!
Que Deus faça assim com o seu casamento, amém!

Exposição 06 = Gálatas 2.11-16 - Um Apelo à Coerência (23/03/2011)

Gravura: O Apóstolo Pedro e Paulo - El Greco (1587-92)

Introdução:
Este é um dos episódios mais tensos descritos no Novo Testamento.

Contexto:
Tendo recebido a destra da comunhão de Pedro, João e Tiago, Paulo se retira de Jerusalém e volta a Antioquia. Agora é Pedro quem retribui a visita e passa alguns dias com Paulo na igreja majoritariamente gentílica de Antioquia.
Antioquia era a principal cidade da Síria, e talvez de toda a Ásia nesse tempo. Foi em Antioquia que os discípulos de Cristo foram chamados pela primeira vez de cristãos (At 11). A igreja de Antioquia foi uma igreja forte e influente até por volta do século V.
O que aconteceu lá? Pedro participava da vida comunitária, comendo e hospedando-se com os cristãos gentios. Tudo ia muito bem até que algumas pessoas ligadas a Tiago, o irmão do Senhor, e líder da igreja de Jerusalém desceram também a Antioquia e causaram este histórico confronto entre Paulo e Pedro. Pedro se afastou dos irmãos gentios e passou a estar somente com os cristãos judeus e os judaizantes infiltrados no grupo.

Proposição:
Paulo confronta a Pedro publicamente por meio de um veemente apelo à coerência e à lealdade ao verdadeiro significado do Evangelho. Vejamos esse apelo de Paulo por meio de dois argumentos:

I) A INCOERÊNCIA É REPREENSÍVEL (V. 11-13):

a)O comportamento repreensível de Pedro.
 Ele se tornara repreensível.
 A incoerência deve ser resistida face a face.
A incoerência de Pedro não era doutrinária, mas ética. A sua conduta espelhou aquilo que ele não cria nem ensinava. Tanto Pedro quanto Paulo eram cristãos, apóstolos e renomados líderes nas igrejas cristãs. Ambos eram habitados pelo Espírito Santo e comungavam do mesmo evangelho.
De repente, Pedro que comia e bebia e até mesmo participava da ceia com os cristãos de Antioquia deixou de fazê-lo. O grupo judaizante usou do nome e da autoridade de Tiago, sem que ele lhes desse (At 15.5) e passou a pregar o evangelho judaizante condenado pelo Concílio de Jerusalém logo depois (At 15).
Pedro se afastou como alguém cauteloso que procura uma forma de não ser notado ao fazê-lo. Afastou-se “vagarosamente”. Por que fez isso?

b)O que gerou a incoerência?
Teve medo dos da circuncisão.
Atendeu a uma atitude partidarista e abandonou a pureza do evangelho. Pedro ficou intimidade pela presença e o discurso do grupo judaizante. Será que Pedro se esquecera da visão que recebera em Jope descrita em Atos 10.9-15)?
O problema foi mais sério.

Deu ouvido a dissimulações.
Dissimulação é comportar-se como um hipócrita, literalmente “fazer fita, fingir”. Ele e os outros agiram com falta de sinceridade, não por convicção pessoal. Ou seja, tentando agradar um grupo, desagradou o outro e comprometeu o evangelho. Pedro fez em Antioquia o que Paulo se recusara a fazer em Jerusalém: Ceder diante de pressão. Sua conduta não era a conduta esperada do evangelho, ele foi incoerente com a sua crença, pregação e experiência cristã. Nós contradizemos o evangelho nas nossas ações quando nos falta coragem nas nossas convicções.

Enredou outros consigo (Barnabé).
Sua incoerência teve conseqüências na implicação de Barnabé. Barnabé fora firme em Jerusalém ao lado de Paulo (2.1,2), mas não permaneceu firme na sua própria igreja! Isso deixou Paulo admirado! Barnabé perdeu o jogo dentro de casa, o que foi muito mais vergonhosos! Ele era o principal pastor de Antioquia; foi ele quem levou Paulo para lá; e havia resistido firme em jerusalém!

II) A INCOERÊNCIA DEVE SER IDENTIFICADA E CORRIGIDA (V.14-16):

a) Eles não procediam segundo a verdade.
A razão de Paulo se indispor contra Pedro foi que ele e Barnabé não agiram de acordo com a verdade do evangelho que eles criam. Se Paulo não fizesse isso e deixasse passar a oportunidade, então a igreja cristã teria se enveredado para a sua primeira divisão. Teríamos uma igreja com duas mesas do Senhor! Haveria uma rixa permanente entre igreja judaica e igreja gentílica. Mais uma vez a coerência de Paulo garantiu a coerência da igreja!
Ilustração: Atanásio de Alexandria foi exilado 5 vezes por resistir ao Arianismo no 4º século. A sua obra “Da Encarnação do Verbo” é um clássico da doutrina da divindade-humanidade de Cristo!
Paulo resistiu a Pedro, enfrentando-o publicamente porque seu comportamento repreensível colocou em jogo sua lealdade ao evangelho da graça. Não há arrogância da parte de Paulo, há amor pelo evangelho. Paulo fez o oposto do que faríamos hoje em dia. Nós tentaríamos abafar e marcar uma reunião particular para tratar do assunto. Mas como Pedro agira publicamente, ainda que discretamente, movido por medo é claro, sua ação pública de abandonar os cristãos gentios e não mais comparecer à celebração da ceia com eles, sua ausência pública tornou público o seu erro.

b) O que realmente estava em jogo era a lealdade ao evangelho.
 Eu não posso obrigar outros a viverem o que eu não vivo.
Pedro vivia como gentio, na liberdade do evangelho, e agora pelo mau exemplo os obrigava a viver como judeus presos à Lei, não conhecedores da graça!

c) Qual é o fundamento do evangelho?
 O homem não é justificado por obras da Lei.
 O homem é justificado mediante a fé em Cristo.
 Nós cremos em Cristo a fim de sermos justificados pela fé nele.
O fundamento do evangelho está no fato de que pecadores culpados e sob o julgamento divino, podem e são perdoados e aceitos por Deus através da graça, pelo favor livre e não merecido de Deus, com base no sacrifício de Cristo na cruz e jamais através de obras meritórias nossas. A verdade do evangelho é a doutrina da justificação tão somente pela graça mediante a fé (Ef 2.8,9), que será o tema do próximo parágrafo.
Se Deus aceitou os gentios com base na graça, quem somos nós para rejeitá-los devido a dissimulações e temores pessoais? Se Deus não rejeitou oferecer a sua comunhão no evangelho, quem somos nós para rejeitar oferecer a nossa comunhão pessoal? Essa era a incoerência de Pedro que negava ao evangelho o seu devido valor e aplicação prática!
Esse incidente precipitou o futuro e decisivo Concílio de Jerusalém, narrado por Lucas em Atos 15, que é conhecido como o primeiro Concílio da igreja, realizado em Jerusalém em 50 dC.

Aplicações:
1. Devemos andar corretamente, de acordo com o evangelho.
Não basta cremos no evangelho, devemos aplicá-lo ao nosso comportamento diário.
Não podemos negar a nossa comunhão a outros grupos que crêem no evangelho tal como nós. Isso é tão grave entre nós. Temos dificuldades dentro da própria igreja local; na denominação; quanto mais com outras igrejas cristãs!
Ao que Deus purificou não podemos considerar comum (At 10.15).

2. Devemos nos opor àqueles que negam o evangelho.
Existem muitos grupos de pressão dentro da igreja, não podemos ceder por causa de medo, conveniência pessoal ou dissimulação de ensino. Precisamos manter nítido diante de nós o evangelho e agir sinceramente sempre movidos por nossa lealdade ao evangelho em primeiro lugar. Não podemos aceitar passivamente qualquer alteração na essência do evangelho da graça. Aceitar mudanças no evangelho é abraçar a tragédia na igreja, devemos resistir aos que provocam mudanças no evangelho sem hesitação!

Conclusão:
A coerência tem um preço, que pode ser às vezes bem alto, mas torna muito mais nítido o nosso caminho!

Exposição 05 = Gálatas 2.1-10 - Um Único Evangelho (16/03/2011)


Introdução:
O que envenenava a vida e o ministério do apóstolo Paulo era a insistente ação dos falsos mestres perturbando todas as igrejas que ele fundava. Com o objetivo de desacreditar sua mensagem desafiavam sua autoridade apostólica.
Uma das formas usadas para isso era dizer que o evangelho pregado por Paulo era diferente do que Pedro e os outros apóstolos pregavam. Alegando contradição entre os apóstolos inferiorizavam a Paulo e enfraqueciam a graça e o poder do evangelho nas igrejas.
Sua volta a Jerusalém após 14 anos da sua conversão, não da primeira visita, tem por objetivo mostrar a falsidade dessas acusações.

Contexto:
No capítulo 1 Paulo mostrou a origem divina de seu evangelho. Agora demonstra que o evangelho que prega é o mesmo evangelho dos demais apóstolos. Não inferior, nem diferente, mas o mesmo e único evangelho da graça de Cristo.
Esta é a segunda visita de Paulo a Jerusalém. Não sobe só, mas acompanhado de Barnabé e Tito, um judeu e um gentio.

Proposição:
O Evangelho é único e assim deve ser recebido e vivido.

I) UMA DEFESA DA VERDADE DO EVANGELHO (V. 1-5):

a)Em obediência a uma revelação de Deus.
A motivação da visita foi a obediência a uma revelação de Deus e não respondendo a um chamado dos demais apóstolos para prestar contas de sua pregação.
É possível que essa revelação fosse a palavra de Ágabo sobre a fome, quando Paulo foi a Jerusalém para entregar uma oferta às igrejas da Judéia (At 11.27-30).

b)Paulo lhes expôs o evangelho aos gentios.
Embora o objetivo não fosse esse, Paulo expôs o evangelho que pregava também aos demais apóstolos. A palavra usada por Paulo que ele o fez respondendo a uma consulta que lhe foi feita.
A razão da exposição não era temor ou receio da parte de Paulo, pois já pregava o evangelho há 14 anos. Sua preocupação era não permitir que o seu ministério fosse tornado infrutífero pelos judaizantes. Era neutralizar a influências desses e não para fortalecer suas convicções que Paulo apresentou o seu evangelho aos demais apóstolos.
 O exemplo da firmeza de Tito.
 Sendo grego não se deixou circuncidar.
Paulo foi ousado em levar Tito consigo e poderia ser tomado como provocação, mas a sua intenção não era essa. Ele desejava deixar claro que judeus e gentios são salvos da mesma forma pelo evangelho da graça e em razão disso devem ser aceitas na igreja sem qualquer discriminação.
A pressão pela circuncisão de Tito não veio da igreja, mas dos falsos irmãos.

Quem mesmo eram eles?
c)A ação dos judaizantes:
 Falsos irmãos que se entremeteram no meio das igrejas.
 Para espreitar nossa liberdade em Cristo.
 Tentam nos reduzir novamente à escravidão.
Eles são tanto falsos cristãos como espiões (BLH), sentido de “entremeter”. A BJ traduz por “intrusos”. Seu objetivo era tão somente espreitar a liberdade cristã e reduzi-la à escravidão. Seu slogan era: “Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos” (At 15.1).
O cristão foi livre da Lei no sentido de que sua aceitação diante de Deus dependa inteiramente da graça divina na morte de Cristo aceita pela fé e não de qualquer ação da parte do homem. Exigir qualquer tipo de obra era um retrocesso.

d)Não nos submetemos a eles.
 Para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós.
Paulo, Tito e Barnabé permaneceram firmes no evangelho da graça.

II) O EVANGELHO AOS GENTIOS É O MESMO EVANGELHO DOS DEMAIS APÓSTOLOS (V.6-9):

Paulo não esteve com todos os apóstolos, mas com Pedro, João e Tiago, o irmão de Jesus. Estes eram os lideres da igreja que tinham maior influência dentro dela em Jerusalém. A forma aparentemente rude com que se refere a eles não é depreciativa e nem irônica, no que diz respeito a eles, mas sim no que diz respeito aos judaizantes, que usavam a reputação deles contra Paulo. Paulo não questiona sua autoridade apostólica e nem e nem os desrespeita, todavia deixa claro que a posição deles não intimida quanto ao seu apostolado. Seu foco é duplo

a) Os apóstolos nada acrescentaram ao evangelho de Paulo.
Eles não fizeram nenhum acréscimo ou remendo na pregação de Paulo.

b) Reconheceram a operação eficaz do evangelho por meio de Paulo tanto quanto por meio deles.
Eles reconheceram publicamente a igualdade e unidade do evangelho de Paulo com o que eles também pregavam.

III) A DESTRA DE COMUNHÃO DOS APÓSTOLOS FOI DADA AO EVANGELHO PREGAO AOS GENTIOS (V.9,10):

Nos versos 9 e 10 Paulo confirma o que dissera nos versos anteriores e acrescenta detalhes.

a)Reconheceram a ação da graça em Paulo.
A operação eficaz à qual se referiu antes é a operação da graça de Deus por meio da pregação do evangelho.

b)Estenderam a destra da comunhão..
O reconhecimento da unidade e igualdade do evangelho pregado pelos apóstolos é feita no estender das suas mãos direitas a Paulo e Barnabé a fim de que pudessem continuar pregando o evangelho com plena liberdade.
A única diferença era o público; Paulo e Barnabé pregariam especialmente aos gentios, enquanto os demais continuariam pregando especialmente aos gentios.
Não eram dois evangelhos diferentes, mas o mesmo pregado a públicos de culturas e costumes diferentes.

Aplicações:
1.A verdade do evangelho é única e imutável.
O evangelho não é contraditório e nem personalizado como se fosse de Pedro, de Paulo, de João ou de Tiago. Ele é o evangelho de Cristo e assim deve ser conhecido (I Co 15.11).

2.A verdade do evangelho deve ser mantida.
Assim como Paulo resistiu aos judaizantes, devemos resistir àqueles que procuram modificar o evangelho para dele tirar proveito.
Paulo era muito brando aos “fracos na fé” e disposto a fazer-lhes concessões uma vez que os princípios fundamentais do evangelho estivessem resguardados, mas ele era implacável para com os “falsos na fé”. Podemos perder tudo o que quiserem nos tomar, menos o evangelho.

Conclusão:
Duros como o diamante na fé, mas meigos e flexíveis quanto ao amor.

domingo, 27 de março de 2011

Exposição 04 = Gálatas 1.11-24 = A Origem do Evangelho de Paulo - (09/03/2011).


Contexto:
Um esboço simples de Gálatas:
Cap. 1 e 2 = A origem do Evangelho é divina e não humana, por isso não dependente deste.
Cap. 3 e 4 = A defesa do Evangelho é dada pelo Antigo Testamento como pela história, atestando sua veracidade.
Cap. 5 e 6 = A aplicação do Evangelho produz verdadeira liberdade, na qual devemos ficar firmes e nos alegrar.
Nos versos 11 e 12 Paulo repete sua afirmação resumida no verso 1 do capítulo 1 de que o evangelho que pregava não tinha origem humana e nem fora recebido por intermédio de homem algum, mas que viera diretamente de Deus por meio de uma revelação divina. Logo o Evangelho não é uma invenção humana e nem transmitido como se fosse uma tradição paternal ou eclesiástica; o Evangelho é recebido “mediante revelação de Jesus Cristo”. A origem e o conteúdo do Evangelho é Jesus Cristo.
Essa é a razão porque Paulo defendera inicialmente o seu apostolado. Uma vez que o evangelho que pregara vinha diretamente de Deus, o mesmo acontecia com o seu apostolado. Tanto a sua missão quanto a sua mensagem eram de Deus, porque vieram diretamente de Jesus Cristo. Seu chamado, sua missão e sua mensagem vinham de Deus para servir aos propósitos de Deus e não de homens!
O texto que estudamos agora é uma argumentação autobiográfica de Paulo a fim de confirmar as palavras dos versos 11 e 12.

Proposição:
A Origem do Evangelho pregado por Paulo é provada na sua própria história de vida. Paulo faz um retrospecto de sua história antes, durante e depois de sua conversão a Cristo:

I) O QUE ACONTECEU ANTES DE SUA CONVERSÃO (V.13,14):

Note que nos versos 13 e 14 Paulo se refere à sua experiência anterior à sua conversão dentro do judaísmo. Nos dois casos Paulo descreve a si mesmo como um fanático, usando as palavras “sobremaneira” e “extremamente zeloso”. Isso era algo do que se “avantajava”. Tudo isso era aplicado ao seu procedimento, à sua conduta ética (moral) como judeu.
Para um judeu como Paulo, “ser judeu não significava apenas que um homem tinha uma religião peculiar para si mesmo, mas também que vivia uma vida que o assinalava como diferente de todos os outros homens”.

a)Como judeu perseguia a igreja.
Primeiro fala de si mesmo como perseguidor da igreja. Essa perseguição era “sobremaneira”, ou seja, com violência. Ele literalmente caçava os cristãos tratando-os violentamente.
Ele nos diz em Atos que ia de casa em casa e prendia cristãos em Jerusalém, levando-os para a prisão (At 8.3). Aprovava sua condenação à morte; castigava-os obrigando-os a blasfemar o nome de Cristo de forma enfurecida perseguindo-os até mesmo fora de Jerusalém (At 26.10,11).
Ele ainda nos diz que devastava a igreja, usando a figura de soldados atacando uma cidade para destruí-la totalmente. Ele havia declarado guerra à igreja de Cristo. Ele foi para Damasco “respirando ameaças e morte” contra os discípulos (At 9.1).

b)Era extremamente zeloso das tradições do judaísmo.
Na segunda afirmação de Paulo ele aponta o motivo de tal violência. Era seu extremado zelo religioso para com a tradição judaica, não o Antigo Testamento, mas a sua interpretação oral feita pelo judaísmo no decorrer dos séculos. É como se dissesse: “_Ninguém da minha idade era tão religioso quanto eu”. Em Atos 26.5 nos informa que fora criado fariseu, a seita mais severa do judaísmo. Era como se fosse um muçulmano xiita dentro do judaísmo.

II) O QUE ACONTECEU NA SUA CONVERSÃO (V.15, 16a):

Todos nós sabemos que a conversão de um religioso fanático é a mais difícil de todas, porque não ouve a ninguém. Paulo testemunha que foi exatamente isso que aconteceu por uma intervenção divina direta em sua vida no episódio da estrada de Damasco.

a) Deus separou a Paulo para o evangelho antes dele nascer.
Paulo faz um contraste entre o que ele era e fazia dentro do judaísmo e o que Deus é e fez por ele através do evangelho de Jesus Cristo. Ele muda o discurso de “eu” para “Deus”.
Paulo usa 3 palavras chaves: Separar – Chamar – Revelar. A iniciativa de Deus é enfatizada em cada uma delas.
Primeiro: Deus o separou antes de ele nascer, fazendo uma referência à eleição (Ef 1.4 = antes da fundação do mundo). Como Jacó e Jeremias, escolhidos por Deus antes de nascerem (Rm 9.10-13; Jr 1.5).

b) Deus o chamou pela sua graça.
Segundo: Deus o chamou pela sua graça. O amor imerecido de Deus o alcançou quando ele menos esperava, engajado, como estava, perseguindo o próprio Cristo.
Ele não pedira e muito menos buscara a graça, ela simplesmente o atingiu, dobrando-o perante o chamado eficaz do evangelho de Cristo. Então foi convertido a Cristo.
Até à sua conversão Paulo conhecia vários detalhes da vida e da história de Jesus, mas somente depois da estrada de Damasco ele o conheceu como o Rei ressurreto dentre os mortos, capaz de executar a salvação que prometera no evangelho. O evangelho não é apenas a história de Cristo, mas a soma de sua história com o milagre sobrenatural do sacrifício da cruz e da ressurreição eterna.

c) Deus revelou Cristo a Paulo para que ele o pregasse aos gentios.
Terceiro: Deus revelou Cristo em Paulo cumprindo o propósito de sua vontade. Paulo perseguia a Cristo porque cria ser ele um impostor, mas Deus o conduziu por um caminho em que lhe foi revelado que de fato Cristo era o messias prometido no Antigo Testamento. Ele conhecia a história da morte e ressurreição de Cristo, mas agora, pela graça de Deus, entendia o seu significado eterno.
O objetivo da vocação de Paulo ficou explícito a ele desde o começo, ele deveria pregar o evangelho de Cristo aos gentios (At 9.15). Ele deveria pregar o evangelho de Cristo e não a lei de Moisés.
A revelação que Paulo recebeu de Cristo foi tanto externa (At 9.3; I Co 9.1; 15.8,9) como interna (Gl 1.14). Cristo foi revelado em Paulo. Note que a forma íntima da revelação não alterou a essência da mesma, porque Paulo deverá pregar o mesmo evangelho que os outros apóstolos já pregavam, e não o seu evangelho particular em competição com o que os demais pregavam.
A nossa grande dificuldade com os apóstolos modernos é que reivindicam a mesma experiência de Paulo, mas a grande diferença é que o seu apostolado lhes é conferido por organismos internacionais auto-declarados com autoridade para fazê-lo e sua mensagem claramente destoa de toda a mensagem bíblica, pois tenta suplementá-la com novas revelações, o que Paulo vai demonstrar não ser o seu caso nos versos seguintes e também no início do capítulo 2.

III) O QUE ACONTECEU DEPOIS DA SUA CONVERSÃO (V.16b-24):

A descrição das ações de Paulo a seguir visa demonstrar novamente que sua vocação e sua mensagem não vierem e nem foram intermediadas por homem algum:


a)Não consultou a nenhum homem; nem procurou os apóstolos em Jerusalém (v.16b,17).
Tudo que será escrito a seguir é para comprovar essas duas afirmações. Segundo Stott, são três álibis. Um álibi é uma justificativa ou escusa aceitável.

1.Buscou o isolamento na Arábia e depois retornou a Damasco (v.17).
Atos 9.20 diz que ele pregou logo de início em damasco, mas teve de fugir devido a uma perseguição contra ele. É possível que tenha ido então para a Arábia em busca de quietude e solidão para meditação nas escrituras, na sua experiência com Cristo e para receber revelações que completaram seu entendimento do evangelho. Lá ele ficou por 3 anos!

2.Conheceu os apóstolos somente 3 anos depois em Jerusalém (v.18-20).
Essa visita possivelmente é a mencionada em Atos 9.26. Paulo não dá importância a essa visita como os judaizantes que o acusavam davam. Avistou-se somente com Pedro e Tiago. O verbo avistar-se era utilizado para visitas turísticas e com o objetivo de viajar para conhecer alguém.
Nada no testemunho de Paulo indica uma visita para aprendizado ou porque tenha sido ordenado ir até lá. Ele foi espontaneamente. Paulo passou 15 dias em Jerusalém e além de Pedro conheceu apenas a Tiago, o irmão do Senhor e que Paulo conta entre os demais apóstolos. Segundo Atos 9.28,29, essas duas semanas foram ocupadas em pregações mais que em encontros.
Demorou 3 anos para ir a Jerusalém, ficou apenas duas semanas e conheceu apenas dois apóstolos. Muito pouco para se dizer que tenha recebido ou aprendido todo o seu ensino do evangelho dessa forma.

3.Passou um tempo na Síria e Cilícia antes de iniciar seu ministério público (v.21-22).
Essa visita ao extremos norte do Império é a de Atos 9.30, quando correndo perigo em Jerusalém foi enviado para Cesréia e depois para Tarso, que fica na Cilícia, passando possivelmente por Antioquia e Damasco (regiões da Síria).

b)A igreja foi informada de sua conversão e glorificava a Deus por isso (v.23,24).
O resultado dessas peregrinações iniciais de Paulo é que era pouco conhecido nas igrejas. As igrejas ouviram falar de sua conversão e glorificavam a Deus por ela, mas nenhum contato tinham tido com ele até a sua experiência pastoral em Antioquia e o início de suas viagens missionárias.
Seu contato com a igreja de Jerusalém e os apóstolos só se dará 14 anos após esses eventos! (Gl 2.1). Esses 3 álibis de Paulo atestam a independência de seu evangelho do colégio apostólico no que diz respeito á sua origem: Veio diretamente de Deus e não por meio de homem algum.

Aplicações:

Qual é o valor de nossa experiência e comportamento no testemunho, na defesa e na pregação do evangelho?
Paulo dá seu testemunho pessoal que foi muito contestado pelos judaizantes, assim como continua sendo contestado por muitos autores de nosso tempo. Alguns simplesmente recusam aceitar seu testemunho e outros dizem que seu testemunho é uma deturpação do evangelho de Cristo.
Nosso testemunho pessoal só é útil ao evangelho se for coerente com a sua mensagem, como Paulo procurou demonstrar. Mesmo assim somente a ação divina pode operar a transformação de vida proposta no evangelho de Cristo.

Conclusão:
Então somos colocados diante de um dilema: Rejeitar o testemunho e o evangelho que Paulo prega ou receber como verdade o evangelho e seu testemunho fortemente embasado em fatos históricos reais? Se Paulo está certo e recebeu seu evangelho verdadeiramente de Deus, então rejeitá-lo é rejeitar a Deus.
Do mesmo modo se os apóstolos modernos puderem demonstrar historicamente sua experiência com Cristo e sua coerência com o evangelho, seria errado rejeitá-los, mas se não puderem estabelecer uma linha de coerência com o evangelho, então recebê-los é abraçar outro evangelho e não conhecer a Cristo verdadeiramente.

Exposição 03 = Gálatas 1.6-11 = A Fórmula da Apostasia: Ensino Falso + Infidelidade. (02/03/2011)


Introdução:
Em busca de algo mais...
A porta de entrada para o falso ensino nas igrejas sempre orbitou em torno de uma pregação depreciativa da suficiência do evangelho e da reintrodução de uma doutrina sinergista, na qual o papel do homem fosse supervalorizado em detrimento da operação da livre graça de Deus no homem.
No fim das contas a proposta de algo mais sempre se reverteu na instituição de uma nova escravidão por meio da subjugação das consciências à bajulação dos falsos mestres.
Para Paulo não rodeios, o nome disso é perversão, ou o abuso daquilo é certo a fim de gerar uma fonte de lucro pessoal e manipulação das consciências para ter poder sobre elas.
Quem quer mais que o evangelho oferece está flertando com a perversão, confundindo liberdade com libertinagem e acabará bebendo de uma fórmula que não será nem mágica nem nada, mas que o envenenará com a apostasia e o abandonará na perdição.

Contexto:
Por isso Paulo é tomado por um sentimento de alarme e de urgência, porque as igrejas da Galácia foram infectadas pelo veneno de uma heresia mortal e seduzidas pela proposta indecente e adúltera da salvação pelas obras camuflada no oferecimento de uma liberdade que dá ao homem a ilusão de que ele mesmo pode salvar-se.
Um detalhe que não pode escapar à nossa atenção é que falta aquela oração inicial que Paulo faz em favor de cada uma das igrejas às quais ele escreve. Ele ora pela problemática igreja de corinto dividida e insubmissa, mas não ora pelos gálatas que estão trocando a suficiência do evangelho por uma perversão do mesmo que é o evangelho judaizante da salvação pelas obras!
Paulo abandona o tom sereno e gracioso da oração, pela agitação de uma mãe que vê seus filhos a ponto de morrerem envenenados por acreditarem nas promessas falsas de vendedores desqualificados.

Proposição:
Paulo trata nessa seção da composição dessa fórmula que sempre fez muito mal à Igreja, que é a fórmula da apostasia, a combinação entre o ensino falso e a INFIDELIDADE de uma fé inconstante. Há três argumentos no texto:

I) APOSTASIA É FRUTO DA INFIDELIDADE V.6:

a)Apostasia é uma troca de fidelidade.
Paulo fica admirado porque eles “estão passando tão depressa” do evangelho verdadeiro para outro que não é verdadeiro.
Note-se no texto que o verbo “metatiqeste” “estejais passando” está na voz ativa e não na voz passiva; e no tempo presente e não no passado, significando que essa era a experiência presente das igrejas da Galácia como fruto de um abandono deliberado, pensado do evangelho a eles pregado por Paulo inicialmente. Essa palavra significa “transferir a fidelidade”. Era aplicada a soldados desertores ou rebeldes e a pessoas que trocam de partido político ou crença filosófica. Quem fazia isso era chamado de “vira-casaca”.
Paulo usa duas preposições para mostrar o movimento dessa troca. Eles partiram de perto (apo = partindo de) do evangelho verdadeiro para dentro (eis) de um evangelho falso. No capítulo 3 ele vai dizer que eles começaram no Espírito e estavam se aperfeiçoando na carne. Eles estavam trocando deliberadamente o evangelho da graça por um evangelho de obras!

b)A apostasia causa admiração.
A admiração de Paulo não é positiva, mas negativa, ela é um assombro, um susto! Como a mãe que percebeu que os filhos haviam bebido um veneno e que isso os mataria caso algo urgente não fosse feito a favor deles!
O espanto vem não somente da não percepção das sutilezas enganadoras, mas da prontidão em abraçá-las como se fossem verdades puras. Ainda mais porque no verso 9 ele dirá que os havia prevenido.
O que causava admiração era o efeito final da apostasia, eles estavam deixando a Deus que os “chamara” na graça por outra mensagem que jamais os levariam a conhecê-lo de fato, na experiência diária.
Essa é a grande questão, não é possível separar a teologia da prática. Teologia enganosa não produz prática saudável, mas apenas uma perversão falsa. Afastar-se do evangelho da graça é afastar-se do Deus da graça.

II) A APOSTASIA É FRUTO DO ENSINO FALSO COMO PERVERSÃO DO EVANGELHO VERDADEIRO V. 7:

a) O ensino falso traz perturbação à fé da igreja.
Os falsos mestres eram “judaizantes”. Paulo resume a proposta deles em Atos 15.1: “Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos”. Não negavam a necessidade de se depositar fé em Cristo, mas que isso não era suficiente; era preciso também e, “além disso”, a circuncisão acompanhada da guarda da Lei. Moisés deveria completar o que Cristo havia iniciado. Isso era o mesmo que dizer que a nossa obediência à Lei é que era o fator decisivo na salvação, acrescentando à obra de Cristo as nossas próprias.
Paulo chama a isso de “perturbação”, uma sacudida violenta, que produziu confusão e divisão nas igrejas gálatas. A palavra é repetida no Concílio de Jerusalém (At 15.24). No concílio ficou claro que os judaizantes eram motivados por vontade própria e não por um envio autorizado e reconhecido pela igreja, argumento que Paulo explorará na próxima seção e no capítulo 2.

b) O ensino falso é uma perversão do evangelho verdadeiro.
A perturbação era causada por uma perversão do evangelho verdadeiro. A ERAB traduz por “distorção” e J. B. Philips por “falsificação”. O sentido literal do texto é “inverter”, fazê-lo ser o que não é. O sentido não é o de entortar, mas o de mudar o que ele é.
Os falsos mestres estavam perturbando a igreja alterando o evangelho para eles. O caso é que a falsificação sempre produz como resultado final perturbação. Alterar a essência do evangelho é alterar a essência da igreja. É fazer a igreja ser o que ela não é!
Na história da igreja seus maiores inimigos nunca foram os opositores externos, mas aqueles que internamente, dentro da igreja, tentam alterar o evangelho no qual a igreja crê. Portanto, o verdadeiro servo é aquele que crê no evangelho e a ele se entrega e submete.

III) A APOSTASIA SERVE AOS PROPÓSITOS DE HOMENS, O VERDADEIRO EVANGELHO SERVE AOS PROPÓSITOS DE DEUS V. 8-10:

a)O evangelho não pode ser mudado nem por apóstolos e nem por anjos.
Citação: Quando o diabo não consegue atrair a igreja para o pecado, ele tenta enganá-la com falsas doutrinas, por isso qualquer tentativa de mudar o evangelho servirá somente aos seus propósitos.
O evangelho é de Deus e nem anjos, inclusive satanás, e nem homens, inclusive a igreja ou os próprios apóstolos, podem mudá-lo ou alterá-lo sem incorrer na condenação de Deus.

b)Perverter o evangelho é trazer sobre si a maldição de Deus.
Paulo usa duas vezes a expressão “anáthema”, que era usada na LXX para indicar banimento por parte de Deus, sua maldição sobre qualquer pessoa u coisa que ele destinasse à destruição. Um anáthema era o desejo de que o juízo de Deus recaísse sobre aquele que foi infiel a Deus.
Uma pessoa “anathematizada” era uma pessoa rejeitada por Deus, e portanto, não poderia ser bem recebida nas igrejas. Duas observações precisam ser feitas sobre essa invocação de anáthema por parte de Paulo.

1)Ela é proferida de forma geral e não apenas sobre os falsos mestres da Galácia. Sobre todo aquele que pervertesse o evangelho deveria recair essa maldição.

2)O anúncio da maldição é deliberada e consciente por parte do apóstolo. Reflete uma decisão tomada com reflexão e não de forma apressada ou deliberada, razão pela qual Paulo a repete com o fim de reforçar o seu sentido.

c)Quem perverte o evangelho para agradar a homens não é servo de Cristo.
Paulo avança afirmando que quem tentar perverter o evangelho não é servo de Cristo, mas busca o favor de homens. Os falsos mestres acusavam Paulo de ser oportunista e bajulador, mas a linguagem firme dele contra os falsos mestres mostra que isso não era verdade.

O que está em jogo?
1)A glória de Cristo e do seu evangelho. Dizer que a obra de Cristo precisava do suplemento das obras era o mesmo que dizer que ela não era completa e nem plenamente satisfatória.

2)O bem estar da igreja. Paulo não defende doutrinas triviais, mas aquela que era o centro do evangelho da graça. Ele argumenta contra mestres que sabiam o que ensinavam e não pessoas com pontos de vista equivocados. Perverter o evangelho é tornar nulo o seu poder que salva o pecador (Rm 1.16,17). Quem faz o próximo tropeçar, melhor seria pendurar uma pedra ao pescoço e lançar-se no mar (Mc 9.42).

Aplicações:

1)O verdadeiro evangelho magnifica a livre graça de Deus.

2)O verdadeiro evangelho tem sua origem em Deus e foi anunciado pelos apóstolos de Cristo.

Conclusão:
Em busca de algo mais...
Por três vezes Paulo nos chama atenção para o fato de que a proposta de um novo evangelho é a promessa de algo mais, ou a afirmação de que falta alguma coisa naquilo que é verdadeiro.
Quantas vezes as pessoas rejeitaram o evangelho por julgá-lo sem graça e insuficiente para preencher suas necessidades imediatas.
As pessoas estão sempre em busca de algo mais, e de forma insaciável continuam rejeitando, como crianças mimadas, aquilo que lhes é oferecido como suficiente. No entanto Deus não lhes oferecerá algo mais, Deus lhes oferece o evangelho da suficiente graça por meio de Cristo.
Você pode aceitar o evangelho e Cristo e descansar eternamente na graça de Deus ou continuar trocando de fidelidade indefinidamente, caminhando sobre o fio da navalha até descobrir que passou do ponto e estar mais longe de Deus do que quando conheceu o verdadeiro evangelho e o trocou por algo que prometia muito, mas não lhe deu nada!
Como será?

sábado, 26 de março de 2011

A origem da Alma No Indivíduo.


Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia-GO
Classe de Doutrina II – Quem É O Homem Para Que Dele Te Lembres?
Professores: Pr. Hélio O. Silva e Presb. Baltazar M. Morais Jr.
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Aula 06 = A Origem da Alma no Indivíduo 27/03/2011.
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1. PREEXISTENCIALISMO.
Alguns teólogos especulativos da escola alexandrina defendiam que as almas dos homens existiam num estado anterior, e que certas ocorrências naquele primeiro estado explicam a condição em que essas almas se acham agora.
Objeções:
(a) É absolutamente vazia de bases bíblicas e filosóficas e, pelo menos nalgumas de suas formas, baseia-se no dualismo de matéria e espírito como ensinado na filosofia pagã, fazendo da ligação da alma com o corpo uma punição para a alma.
(b) Faz do corpo uma coisa acidental porque a alma estava inicialmente sem o corpo, recebendo-o posteriormente. O homem era completo sem o corpo. Isto elimina virtualmente a distinção entre o homem e os anjos.
(c) Destrói a unidade da raça humana, pois presume que todas as almas individuais existiam muito antes de entrarem na vida presente. Elas não constituem uma raça. (d) Não acha suporte na consciência do homem. O homem absolutamente não tem consciência de uma tal existência anterior; tampouco sente que o corpo é uma prisão ou um lugar de punição para a alma. De fato, ele teme a separação de corpo e alma como uma coisa antinatural.

2. TRADUCIONISMO.
De acordo com este conceito, a alma do homem, de semelhante modo ao corpo, origina-se mediante reprodução, ou seja, as almas dos homens são reproduzidas juntamente com os corpos pela geração natural e, portanto, são transmitidas pelos pais aos filhos. Desde os dias de Lutero o traducionismo tem sido o conceito geralmente aceito pela Igreja Luterana. Entre os reformados contemporâneos (calvinistas), tem o apoio de H.B. Smith e W. G. T. Shedd. E no congregacionalismo: A. H. Strong.

a. Argumentos em favor do traducionismo.
(1) A linguagem descritiva bíblica parece favorecer o traducianismo:
(a) Deus soprou uma única vez nas narinas no homem o fôlego de vida, e depois deixou que o homem reproduzisse a espécie, Gn 1.28; 2.7;
(b) a criação da alma de Eva estava incluída na de Adão, desde que se diz que ela foi feita “do homem” (1 Co 11.8); nada se diz acerca da criação da sua alma separadamente em Gn 2.23;
(c) Deus cessou a obra de criação depois de haver feito o homem, Gn 2.2; e
(d) Os descendentes estão nos lombos dos seus pais, Gn 46.26; Hb 7.9,10. E ainda Jo 3.6; 1.13; Rm 1.3; At 17.26.
(2) tem o apoio da analogia da vida vegetal e animal, em que o aumento numérico é assegurado, não por criação imediata direta, mas pela derivação natural de novos indivíduos de um tronco paterno. Porém veja o Sl 104.30.
(3) A teoria também tem apoio na herança genética de peculiaridades mentais e tipos familiais (traços físicos e mentais individuais).
(4) Finalmente, ela parece oferecer uma base mais simples para a explicação da herança da depravação moral e espiritual, que é assunto da alma, e não do corpo.

b. Objeções ao traducionismo.
(1) É contrária à doutrina filosófica da simplicidade da alma. A alma é uma substância puramente espiritual que não admite divisão. A reprodução da alma pareceria implicar que a alma do filho se separa de algum modo da alma dos pais. Além disso, levanta-se a questão se ela se origina da alma do pai ou da mãe. Ou provém de ambos? Sendo assim, não é um composto?
(2) para evitar a dificuldade recém-mencionada, esse conceito tem que recorrer a uma destas três teorias:
(a) que a alma da criança teve uma existência anterior, uma espécie de preexistência;
(b) que a alma está potencialmente presente na semente do homem ou da mulher ou de ambos, o que é materialismo; ou
(c) que a alma é produzida, isto é, criada de algum modo pelos pais, o que faz deles criadores, em certo sentido.
(3) O traducionismo parte do pressuposto de que, depois da criação original, Deus só age mediatamente, uma vez que depois dos seis dias da criação a Sua obra criadora cessou.
(4) Geralmente se alia à teoria do realismo, uma vez que é o único modo pelo qual pode explicar a culpa original.
(5) Finalmente, na forma imediatamente acima indicada, a teoria leva a dificuldades insuperáveis na cristologia. Se em Adão a natureza humana pecou globalmente, e esse pecado foi, portanto, o verdadeiro pecado de cada parte dessa natureza humana, não se pode fugir à conclusão de que a natureza humana de Cristo também foi pecadora e culpada, porque teria pecado de fato em Adão.

3. CRIACIONISMO.
A teoria do criacionismo sustenta que Deus cria uma nova alma por ocasião do nascimento de cada indivíduo. Deste modo, cada alma individual deve ser considerada como uma imediata criação de Deus, devendo a sua origem a um ato criador direto. A alma é, supostamente, uma criatura pura, mas unida a um corpo depravado. Não significa necessariamente que a alma é criada primeiro, separadamente do corpo, corrompendo-se depois pelo contato com o corpo, o que pareceria pressupor que o pecado é algo somente físico.

a. Argumentos em favor do criacionismo. São as seguintes, as mais importantes considerações em favor dessa teoria:
(1) É mais coerente com as descrições gerais da Escritura, que o traducionismo. O relato original da criação indica marcante distinção entre a criação do corpo e a da alma. Aquele é tomado da terra, ao passo que esta vem diretamente de Deus. Esta distinção se mantém através de toda a Bíblia, onde o corpo e a alma não somente são apresentados como substâncias diferentes, mas também como tendo origens diferentes, Ec 12.7; Is 42.5; Zc 12.1; Hb 12.9. Cf. Nm 16.22. Da passagem de Hebreus, mesmo Delitzch, apesar de traducionista, diz: “Dificilmente poderá haver um texto-prova mais clássico em favor do criacionismo”.
(2) É claramente mais coerente com a natureza da alma humana, que o traducionismo. A natureza imaterial e espiritual e, portanto indivisível, da alma do homem, geralmente admitida por todos os cristãos, é expressamente reconhecida pelo criacionismo.
(3) Evita os perigos latentes que corre o traducionismo na área da cristologia.

b. Objeções ao criacionismo. O criacionismo expõe-se às seguintes objeções:
(1) A objeção mais séria é exposta por Strong com as seguintes palavras: “Se essa teoria admite que a alma era possuída originalmente de tendências depravadas, faz de Deus o autor direto do mal moral; se ela sustenta que a alma foi criada pura, faz de Deus indiretamente o autor do mal moral, ensinando que Ele introduz essa alma pura num corpo que inevitavelmente a corromperia”. Esta é, indubitavelmente, uma séria dificuldade, e geralmente é considerada como o argumento decisivo contra o criacionismo. Agostinho já tinha chamado a atenção para o fato de que o criacionista devia procurar evitar este risco. Deve-se ter em mente, porém, que, ao contrário do traducionista, o criacionista não considera o pecado original inteiramente como matéria de herança. Os descendentes de Adão são pecadores, não como resultado de serem postos em contato com um corpo pecaminoso, mas em virtude do fato de que Deus lhes imputa a desobediência original de Adão. E é por essa razão que Deus retira deles a justiça original, seguindo-se naturalmente a corrupção do pecado.
(2) O criacionismo considera que o pai terreno gera somente o corpo do seu filho – certamente não a parte mais importante da criança – e, portanto, não explica o reaparecimento das características morais e mentais dos pais nos filhos.
(3) O criacionismo não está em harmonia com a relação atual de Deus com o mundo e com a Sua maneira de agir nele, visto ensinar uma atividade criadora direta de Deus, e assim ignora o fato de que Deus presentemente age por meio de causas secundárias e cessou Sua obra criadora. Esta objeção não é muito grave para os que não têm uma concepção deísta do mundo. É uma pressuposição gratuita, dizer que Deus cessou a Sua atividade criadora no mundo.

OBSERVAÇÕES FINAIS.
a. Requer-se cautela ao falar sobre este assunto. Deve-se admitir que os argumentos de ambos os lados são muito equilibrados, apresentando peso igual. A Bíblia não faz nenhuma afirmação direta a respeito da origem da alma do homem, exceto no caso de Adão. Não pretendamos sabedoria acima daquilo que está escrito.

b. Alguma forma de criacionismo merece preferência. Parece-nos que o criacionismo merece preferência porque (1) não encontra a insuperável dificuldade filosófica que pesa sobre o traducionismo; (2) evita os erros cristológicos que o traducionismo envolve; e (3) harmoniza-se mais com a nossa idéia de aliança.

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Bibliografia: Louis Berkhof, Teologia Sistemática, ECC, p. 188-194./ Heber Carlos de Campos, Antropologia Bíblica, p. 26-29 (não publicado) / M. E. Osterhaven, “Alma”; Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, vol.1, Vida Nova, p.48,49.

Aula 05 = A Natureza Constitucional do Homem


Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia-GO
Classe de Doutrina III – O Homem à Luz da Bíblia.
Professores: Pr. Hélio O. Silva e Presb. Josias Correia
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Aula 05 = A NATUREZA CONSTITUCIONAL DO HOMEM 20/03/2011.
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A. Os Elementos Constitutivos da Natureza Humana.
1. DICOTOMIA E TRICOTOMIA.
DICOTOMIA significa entender que o homem consiste de duas partes distintas, e de duas somente: O corpo e a alma. Tricotomis significa entender que a natureza humana consiste de três partes, corpo, alma e espírito.

A TRICOTOMIA originou-se na filosofia grega, que entendia a relação mútua entre o corpo e o espírito do homem segundo a analogia da mútua relação entre o universo material de Deus. Estes só podiam ter comunhão um com o outro por meio de uma terceira substância ou de um ser intermediário. Assim corpo e espírito só podiam manter relações mútuas vitais por meio de um terceiro elemento intermediário, a alma. Por um lado, a alma era considerada como imaterial e, por outro, como adaptada ao corpo. Na medida em que se adapta ao nous ou ao pneuma, era tida como imortal, mas na medida em que se relaciona com o corpo, como carnal e mortal. A mais conhecida, e também a mais crua forma de tricotomia, é a que toma o corpo como a parte material da natureza humana, a alma como o princípio da vida animal, e o espírito como o elemento humano racional, imortal e relacionado com Deus.

A concepção tricotômica do homem recebeu considerável apoio dos “pais” da igreja grega ou Alexandrina dos primeiros séculos da era cristã. Caiu em descrédito depois que Apolinário a empregou de maneira ofensiva à perfeita humanidade de Jesus. Todavia, na igreja latina, a dicotomia recebeu maior apoio. Foi especificamente a psicologia de Agostinho que lhe devolveu a proeminência e durante a Idade Média, o catolicismo a abraçou como crença comum. A Reforma manteve-se aliada ao conceito dicotômico com pouquíssimas excessões. Durante o século dezenove a tricotomia foi revivida numa ou noutra forma por certos teólogos alemães e ingleses, mas, no geral, o conceito da dicotomia prevaleceu. Além dessas duas concepções teológicas, houve também, principalmente no último século e meio, os conceitos filosóficos do materialismo absoluto e do idealismo absoluto, aquele sacrificando a alma em favor do corpo, e este, o corpo em favor da alma.

2. OS ENSINAMENTOS DA ESCRITURA SOBRE A CONSTITUIÇÃO DO HOMEM.
A exposição geral da natureza do homem na Escritura é claramente dicotômica. De um lado, a Bíblia nos ensina a ver a natureza do homem como uma unidade, e não como uma dualidade consistente de dois elementos diferentes, cada um dos quais movendo-se ao longo de linhas paralelas sem realmente unir-se para formar um organismo único. A idéia de um simples paralelismo entre os dois elementos da natureza humana, encontrada na filosofia grega e também nas obras de alguns filósofos posteriores, é inteiramente alheia à Escritura. Embora reconhecendo a complexa natureza humana, ela nunca a expõe como redundando num duplo sujeito no homem. Cada ato do homem é visto como um ato do homem todo. Não é a alma, e sim, o homem, corpo e alma, que é redimido em Cristo.

Esta unidade já acha expressão já no relato da criação do homem Gn 2.7: “Então formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente”. Esta obra realizada por Deus não deve ser interpretada como um processo mecânico, como se Ele tivesse formado primeiro o corpo do homem e depois tivesse posto nele uma alma. Quando Deus formou o corpo, formou-o de modo que, pelo sopro do Seu Espírito Santo, o homem se tornou imediatamente alma vivente, Jó 33.4; 32.8. A palavra “alma”, em Gn 2.7, não tem o sentido de a parte abstrata do homem, mas denota um ser vivo, e é a descrição do homem completo. Exatamente a mesma expressão hebraica, nephesh hayyah (alma ou ser vivente) é aplicada também aos animais em Gn 1.21, 24, 30. Assim, embora a passagem indique que há dois elementos no homem, a ênfase recai na unidade orgânica do homem.

Ao mesmo tempo, ela contém igualmente provas da composição dual da natureza humana. Contudo, devemos acautelar-nos quanto a esperar ver no Antigo Testamento a distinção posterior entre o corpo, como o elemento material, e a alma, como o elemento espiritual da natureza humana. Esta distinção entrou em uso mais tarde, sob a influência da filosofia grega. A antítese – alma e corpo – mesmo em seu sentido neotestamentário, não se acha no Antigo Testamento. De fato, o hebraico não tem uma palavra para o corpo como organismo. A distinção veterotestamentária dos dois elementos da natureza humana está na antítese entre o inferior e o superior, o terreno e o celeste, o animal e o divino. Não se trata tanto de dois elementos, mas de dois fatores que se unem, com uma resultante única e harmoniosa – “o homem passou a ser alma vivente”. É evidente que é essa a distinção presente em Gn 2.7 (Cf. Jó 27.3; 32.8; 33.4; Ec 12.7. Várias palavras são empregadas no Antigo Testamento para indicar o elemento inferior do homem ou partes dele, como “carne”, “pó”, “ossos”, “entranha”, “rins”, e também a expressão metafórica de Jó 4.19, “casas de barro”. Há também diversas palavras que indicam o elemento superior, como “espírito”, “alma”, “coração” e “mente”. Tão logo passamos do Antigo para o Novo Testamento, encontramos as expressões antitéticas com que estamos mais familiarizados, como “corpo e alma”, “carne e espírito”. As palavras gregas correspondentes foram, sem dúvida, moldadas pelo pensamento filosófico grego, mas passaram para o Novo Testamento por intermédio da Septuaginta (LXX) e, portanto, retiveram a sua ênfase veterotestamentária. Ao mesmo tempo, a idéia antitética do material e o imaterial atualmente se liga a elas.

Os tricotomistas procuram suporte no fato de que a Bíblia reconhece duas partes constitutivas da natureza humana em acréscimo ao elemento inferior ou material, a saber, a alma (hebraico, nephesh; grego, psyque) e o espírito (hebraico, ruah; grego, pneuma). Mas o uso desses termos com grande freqüência na escritura não dá base para a conclusão de que designam partes componentes, em vez de aspectos diferentes da natureza humana. Um cuidadoso estudo da Escritura mostra claramente que ela emprega as palavras umas pelas outras, em permuta recíproca. Ambos os termos indicam o elemento superior ou espiritual do homem, vendo-o, porém, de diferentes pontos de vista. Contudo, é preciso mostrar logo de início que a distinção que a Escritura faz entre os dois não concorda com o que é mais comum na filosofia, de que a alma é o elemento espiritual do homem, conforme se relaciona com o mundo animal, enquanto que o espírito é o elemento em relação com o mundo espiritual superior, e com Deus.

Os seguintes fatos militam contra essa distinção filosófica: Ruah-pneuma, bem como nephesh-psyque, são empregados com referência à criação animal inferior, Ec 3.21; Ap 16.3. A palavra psyque é empregada até com referencia a Jeová (Is 42.1; Jr 9.9; Am 6.8 (texto hebraico); Hb 10.38). Os mortos desencarnados são chamados psyqai (Ap 6.9; 20.4). Os mais elevados exercícios da religião são atribuídos à psyque (Mc 12.30; Lc 1.46; Hb 6.18, 19; Tg 1.21). Perder a psyque é perder tudo. É mais que evidente que a Bíblia emprega as duas palavras uma pela outra, permutando-as reciprocamente. Observa-se o paralelismo em Lc 1.46, 47: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador”. A fórmula escriturística para designar o homem é, nalgumas passagens, “corpo e alma”, Mt 6.25 (psyquê e soma) 10.28; e noutras, “corpo e espírito” (Ec 12.7; 1 Co 5.3, 5). Às vezes a morte é descrita como a entrega da alma (Gn 35.18; 1 Rs 17.21; At 15.26) e também como a entrega do espírito (Sl 31.5; Lc 23.46; At 7.59). Além disso, tanto “alma” como “espírito” são empregados para designar o elemento imaterial do homem (1 Pe 3.19; Hb 12.23; Ap 6.9; 20.4). A principal distinção feita pela Escritura é como segue: a palavra “espírito” designa o elemento espiritual do homem como o princípio de vida e ação que domina e dirige o corpo; ao passo que a palavra “alma” denomina o mesmo elemento como o sujeito da ação no homem e, portanto, muitas vezes é empregada em lugar do pronome pessoal no Antigo Testamento (Sl 10.1, 2; 104.1; 146.1; Is 42.1; cf. Lc 12.19). Em diversos casos, designa mais especificamente a vida interior como a sede dos sentimentos. Isso tudo está em completa harmonia com Gn 2.7, “o Senhor Deus...lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente”. Assim, pode dizer que o homem tem espírito, mas é alma.

Portanto, a Bíblia indica dois, e somente dois, elementos constitutivos da natureza humana, a saber, corpo e espírito ou alma. Esta descrição escriturística harmoniza-se também com a consciência própria do homem. Enquanto que o homem tem consciência do fato de que consiste de um elemento material e de um elemento espiritual, nenhum homem tem consciência de possuir alma em distinção do espírito.
Há duas passagens que parecem estar em conflito com a descrição dicotômica da escritura: 1 Ts 5.23 e Hb 4.12. Vejamos
a) É boa regra de exegese que as afirmações particulares sejam interpretadas à luz do todo das escrituras.
b) A simples menção dos termos espírito e alma um ao lado do outro não prova que, segundo a escritura, são duas substâncias distintas, como também Mt 22.37 não prova que Jesus considerava o coração, a alma e o entendimento como três substâncias distintas.
c) Em 1 Ts 5.23 Paulo deseja simplesmente fortalecer a afirmação: “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo”, enfatizando os diferentes aspectos da existência do homem, e na qual o apóstolo se sente perfeitamente livre para mencionar os termos alma e espírito um ao lado do outro, porque a Bíblia distingue entre ambos. Ele não poderia ter pensado na alma e no corpo como duas substâncias diferentes, porquanto noutros lugares da Escritura diz ele que o homem consiste de duas partes, Rm 8.10; 1 Co 5.5; 7.34; 2 Co 7.1; Ef 2.3; Cl 2.5.
(d) Hb 4.12 não deve ser entendido no sentido de que a palavra de Deus, penetrando no íntimo do homem, faz separação entre a sua alma e o seu espírito, o que naturalmente implicaria que são duas substâncias diferentes; mas simplesmente no sentido de uma declaração de que ela produz uma separação entre os pensamentos e as intenções do coração.
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Bibliografia: Louis Berkhof. Teologia Sistemática, ECC.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Raabe


Raabe
(Josué 2; Hebreus 11.31)

O vento sopra nas palmeiras e as folhas farfalham uma canção que só o meu coração escuta: É preciso mudar; decidir seguir um novo caminho. As muralhas de Jericó são fortes e são altas, mas se ele abriu um mar, o que poderão fazer essas pedras? Elas não passam de poeira que o vento que vem do rio Jordão assopra! Ele secou as águas do Mar Vermelho diante dos olhos deles! O grande faraó do Egito e os reis amorreus das planícies dalém do rio não puderam resistir à força de seu braço. E nós?!

O Deus deles é o Senhor; Deus em cima nos céus e também embaixo na terra. Qual será a força de Baal diante de um Deus assim? Certamente não passará de um pálido mugido. As muralhas ruirão, e essa casa sobre os muros deixará de existir. Tudo o que fiz e construi se tornarão ruínas e pó para o vento levar. Não há mais nada para amar aqui, porque tudo vai passar (I Jo 2.15-17).

Os espias que acolhi e protegi me disseram que ele usará de misericórdia para comigo assim como fiz com eles. Ele é um Deus bondoso, justo e acolhedor, que não esquece nossos atos e abençoa aos que lhe obedecem, depositando fé nas suas promessas (Hb 11.31). Mas, e os meus pecados?! A vida que levo e os amores passageiros que conheci? Como viverei? Certamente tudo ficará bem. O seu povo andou no deserto quarenta anos e nada lhes faltou. Nada faltará para nós também (Sl 23.1). Em minhas mãos eu tenho uma fita escarlate que, disseram, será o sinal que garantirá a minha vida e da minha família.

Eu sei que o Senhor lhes deu essa terra! O seu juízo caiu sobre nós! Fico olhando da minha janela através desse deserto que a minha vida se tornou esperando a água pura que possa matar a minha sede e me dar esperança. Eu preciso de uma nova vida e agora entendo que o Senhor possa dá-la a mim e cercar-me de todas as alegrias que eu não tive. A segurança que não conheço... E o perdão que eu preciso... Acolher com paz os seus espias foi a melhor decisão. Ainda que o rei de Jericó me prendesse e matasse, é melhor esperar o favor de um Deus que pode salvar do que morrer nesse tipo de vida ímpia e sem paz que tenho aqui. Longe da verdade eu não quero andar nunca mais!

Eu atei a fita escarlate à minha janela, abracei o seu perdão; fechei a porta e esperarei a promessa chegar. Se Deus me guardar eu farei tudo diferente; começarei tudo outra vez e viverei uma nova vida. Eu obedecerei, guardarei sua doutrina e viverei no meio do seu povo. Eu lhe darei tudo que Baal e minha velha vida jamais me deram. Eu me entregarei a esse Deus fiel que não falha para servi-lo e amá-lo!

Cristo é a minha esperança de perdão e de salvação. Porque ele me dá a esperança de viver e de não perecer! O fino fio de sangue que aquela fita atada na janela representa é tudo o que preciso; é tudo que minha família precisa. Vamos obedecer e confiar. Vamos esperar o tempo chegar e recomeçar tudo de outra forma na nova terra que o Senhor dará ao seu povo. Essa vida que vivo em Jericó ficará para trás, para nunca mais voltar! Tudo se fará novo (II Co 5.17). Posso ouvir o som do povo marchar. Posso ver a história virar. Posso sentir meu coração palpitar. A minha jubilosa salvação está para chegar! (Jo 5.24).

Com amor, Pr. Hélio = 16/03/2011

Para ser publicado no Boletim da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia-GO Ano XXII, nº12 de 20/03/2011.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Exposição 02 = Gálatas 1.1-5 = A Autoridade do Apóstolo Paulo e Seu Evangelho


Introdução:
Uma exposição bíblica seqüencial é de grande valor tanto para o pregador quanto para a Igreja. Ela nos força a dar atenção ao texto como um todo não podendo negligenciar passagens mais difíceis ou desinteressantes para nós pessoalmente. Isso minimiza tanto a má interpretação quanto a má aplicação das escrituras porque o texto é visto e aplicado dentro do seu contexto próprio.
Mas também é útil para igreja, porque lhe dá uma visão equilibrada do todo, podendo perceber como as doutrinas se encaixam e se aplicam dentro da própria escritura inspirada pelo Espírito. Ensinamos e aprendemos as doutrinas bíblicas dentro do contexto em que o Espírito Santo as colocou ajudando-nos a aplicá-las com mais exatidão e reverência.
Por que dizer isso no início dessa exposição aos Gálatas?
Porque a igreja continua correndo o risco de dar ouvidos a doutrinas e ensinamentos particulares que nos afastam do verdadeiro evangelho. Essa é a preocupação inicial de Paulo ao resolver escrever essa epístola.

Contexto:
Paulo escreve essa carta a um grupo específico de quatro igrejas da região montanhosa da Galácia do Sul, na província romana da Psídia (Antioquia, Icônio, Listra e Derbe).
Essas igrejas foram fundadas durante sua primeira viagem missionária conforme Lucas narra em Atos 13 e14.

Proposição:
Já no primeiro parágrafo Paulo menciona dois temas aos quais recorrerá novamente no decorrer da epístola insistentemente: O seu apostolado e o seu evangelho. Ele defenderá a autoridade de seu apostolado e a genuinidade de seu evangelho contra os falsos mestres judaizantes. Vejamos:

I) A AUTORIDADE DE PAULO É DE ORIGEM DIVINA V.1,2:

a)Paulo é apóstolo de Cristo.
Paulo reivindica exatamente o título que os falsos mestres lhe negavam. Para os judeus um apóstolo era um mensageiro especial, com um status especial, desfrutando de uma autoridade e um comissionamento também especiais dados por alguém que era seu superior.
Jesus chamou o grupo de 12 discípulos que separou para estarem com ele sempre e para enviá-los a pregar de “Apóstolos” (Mc 3.13-17, Lc 6.13). Observe que esse grupo era pequeno e único.
A Escritura credita este título apenas aos doze, a Matias, a Paulo (como um nascido fora do tempo – I Co 15.8), a Tiago, o irmão do Senhor (Gl 1.19, I Co 15.7) e de uma forma bem mais limitada a Barnabé, Timóteo e Silas (At 14.4,14; I Ts 2.6). Os apóstolos, ao lado dos profetas do AT formam o alicerce da Igreja (Ef 2.20 e 3.5). Uma das principais credenciais do apostolado era ter visto o Senhor (I Co 9.1). “Um apóstolo era alguém enviado numa missão específica, na qual age com plena autoridade em favor de quem o enviou, e que presta contas a este”.
Por isso, nesse sentido, os apóstolos não tiveram sucessores. Observe no texto que Paulo faz diferença entre si “apóstolo” e seus companheiros “todos os irmãos meus companheiros”. Ele é apóstolo, mas os que o acompanham, não.

b) Não da parte de homens.
Paulo não deixa dúvida alguma quanto á natureza do seu apostolado. Ele foi chamado para ser apóstolo (Rm 1.1) pela vontade de Deus (II Co 1.1; Ef 1.1; Cl 1.1; I Tm 1.1; II Tm 1.1).
Todavia aqui ele acrescenta duas afirmações novas e contundentes. Seu apostolado é divino, não humano.

c) Nem por intermédio de homem algum.
Veio direto de Deus e não por intermédio de homens. Ou seja, quem o designou não foi um grupo de homens, como liderança da igreja. Ela veio de Deus. Também não houve mediadores, ela veio direta e totalmente de Deus.

d) Por Jesus Cristo e por Deus Pai.
Essa afirmação faz o contraste com as duas anteriores. Quem chamou e designou a Paulo foi Cristo e Deus, o Pai. O mediador de seu chamado foi o próprio Cristo e o Pai.
Essa defesa de Paulo é importante, porque se fica constatado que Paulo não fosse um apóstolo genuíno de Cristo, então as pessoas poderiam rejeitar o seu evangelho. Por isso, Paulo defende sua autoridade apostólica a fim de defender a mensagem do Evangelho.
Essas afirmações de Paulo afirmam a autoridade do Novo Testamento contra duas linhas de pensamento moderno:

1.A opinião radical: Os apóstolos eram simples testemunhas de Cristo no século I da mesma maneira que somos testamunhas de Cristo no século XXI. Se não gostam das opiniões paulinas a refugam dizendo que pensam diferente. Não podemos rejeitar a sua autoridade inspirada dessa forma.

2. A opinião católico-romana: para eles foi a igreja que escreveu a bíblia (os clérigos), logo ela está acima da Bíblia, podendo interpretá-la e fazer-lhe acréscimos. Os apóstolos não eram apóstolos da igreja, mas de Jesus Cristo.
É claro nas escrituras que os apóstolos derivaram sua autoridade de Deus por meio de Cristo, por isso sua autoridade é divina, não humana, nem eclesiástica.

II) O EVANGELHO DE PAULO É O ANÚNCIO DA SALVAÇÃO REALIZADA POR CRISTO NA CRUZ V.3,4:

Paulo saúda a igreja com a graça e a paz. Duas palavras chaves na compreensão da pregação do evangelho genuíno. A fonte da salvação é a graça como o favor livre de Deus e a sua natureza é a paz; paz com Deus, com os homens e consigo mesmo.
O evento histórico que tornou possível tanto a graça como a paz para nós foi a crucificação de Jesus Cristo, o Filho d Deus.

a) Cristo morreu pelos nossos pecados.

 Sua morte na Cruz foi expiatória.
“A morte de Jesus Cristo não foi primordialmente uma demonstração de amor, nem um exemplo de heroísmo, mas, sim, um sacrifício pelo pecado”. Quer dizer; morreu para tirar pecados (expiação). Ele ofereceu o único sacrifício pelo qual os nossos pecados poderiam ser perdoados e esquecidos.
O aspecto expiatório de Sua morte é visto nas referências bíblicas ao seu sangue derramado por nós.
Rm 3.25: ...Através do Seu sangue...
Ef 1.7: ... Trouxe-nos a redenção pelo Seu sangue...
Ef 2.13: ...Pelo Seu sangue trouxe-nos para junto de Deus...

 Sua morte na Cruz foi vicária.
Ele morreu por nós, a nosso favor. O lucro resultante de Sua morte foi para nós. Em Mc 10.45, o texto diz que Ele veio para dar sua vida em resgate de muitos...
Voluntariamente veio sob a “mancha do pecado” (Ladd), penetrou em suas mais profundas trevas, e compartilhou com os homens seu terrível peso e pena. Ele se tornou gente como a gente para demonstrar seu imenso amor e nos dar uma nova vida. Tudo isso Ele fez por você e por mim.

 Sua morte na Cruz foi substitutiva.
Ele morreu em nosso lugar.
“Pois morreu a nossa morte para vivermos Sua vida; nos trouxe grande salvação”. Ele não morreu apenas por mim, mas morreu em meu lugar. Ele morreu a morte que eu tinha de morrer, ou que vou morrer se não lhe entregar a minha vida hoje!!! O mais rápido que eu puder...
Mas, se eu creio, então eu não morrerei, mas viverei eternamente com Ele. Pois morri com Ele, para viver com Ele.
É hora de abraçar a Cruz. Ela é o instrumento da nossa paz com deus (Ef 2.14,15).

b) Cristo morreu para nos libertar deste mundo perverso.

“Mundo perverso” é uma referência ao sistema mundano em oposição a Deus que tenta nos prender longe de Deus. O evangelho é uma libertação. Merril Tenney intitulou seu comentário dessa epístola como: A Escritura da Liberdade Cristã (Vida Nova, 3ª Ed., 1983).
Segundo Stott, “mundo” (aiwnos) seria melhor traduzido por “dispensação”. Conversão cristã é a libertação da antiga dispensação para a nova dispensação. O propósito da morte de Cristo foi, além de nos perdoar de nossos pecados, dar-nos uma nova vida em Cristo.

 A Sua morte é Redentora.
Seu efeito é nos livrar da condenação que o pecado traz sobre nós. Exelhtai - Subjuntivo aoristo médio: “tirar para si”, remover, livrar - levantando. A palavra fala de algo que é arrancado e sacode-se para que a terra caia de volta.
Deus nos salva para Si, para termos comunhão com Ele.

 Sua morte é Santificadora.
Ele nos arranca desse mundo perverso (Desse século presentemente mau). O “mundo” é esse sistema que pensa e age de acordo com os princípios e alvos de satanás.
Cristo derrotou também ao mundo pela Cruz. Abraçando a Cruz, eu não mais pertenço ao mundo, mas a Deus (Gl 2.20 e 6.14).
Não queira ter as suas raízes presas ao mundo, pois ele passa, e com ele todo o seu prazer. Abraçar o mundo, as coisas do mundo, os valores do mundo , é a mais insensatez, pois o que permanecerá será somente o que foi salvo pela Cruz.
O mundo só deseja seduzir, fascinar (ebaskanen - enfeitiçar, lançar um encanto).
Ilustração: No livro, A Cadeira de Prata, C.S. Lewis narra-se uma cena em que a feiticeira lança um feitiço sobre o fogo da lareira para seduzir os heróis a se conformarem com o mundo dentro de sua caverna, dizendo repetidamente “Só existe este mundo da caverna, não há outro”. A dor de um pé queimado retirou o feitiço.
A dor da cruz pendente entre o céu a terra é quem nos livra do mundo. Você precisa olhar para a cruz, e ver claramente o que aconteceu lá. Disso depende toda a sua vida. Sem a santidade da cruz ninguém verá o senhor (Hb 12.14).

a) Cristo morreu para cumprir a vontade de Deus.
Essa é a grande vitória da Cruz! A vontade do Pai foi cumprida e produzirá seus efeitos eternos! A origem da provisão para a nossa salvação foi a eterna e soberana vontade do Pai.

 Sua morte na Cruz foi Propiciatória.
Fazer propiciação é acalmar a pessoa que foi ofendida. Aplacar a ira.
A Bíblia diz que os nossos pecados ofendem a Deus e nos separam Dele.
Sem a Cruz, Deus não poderia ser o NOSSO Deus, e nos dar a salvação.
Como condenar o pecado sem destruir junto o pecador?
A resposta é Cristo e Sua Cruz. Na Cruz Deus exerce misericórdia e amor diretamente para conosco, condenando o pecado em seu Filho inocente, que voluntariamente morreu por nós.

Sua morte na Cruz é reconciliadora.
Rm 5.11 declara que isso é uma benção real e presente (para o agora, hoje).
Através da morte de Cristo, fomos libertos do julgamento, absolvidos de nossa culpa por causa do sangue derramado por cristo na Cruz.
Agora, muito mais que temido, Deus pode ser amado com todas as nossas forças. Aleluia!!!
Esta é a vontade do Pai: Trazer-nos de volta para perto Dele, para que possa cuidar de nós.

Conclusão v.5:
Paulo prorrompe em doxologia. Todo louvor deve ser dado a Deus e a Cristo, porque Deus providenciou a nossa salvação do começo ao fim de forma garantida e eficaz:
1º. Providenciou a morte de Cristo pelos nossos pecados.
2º. Designou o ministério apostólico autorizado para dar testemunho verdadeiro de Cristo.
3º. Deu-nos o dom da graça e da paz por meio de Cristo.
Em cada um desses estágios o Pai e o Filho agiram e continuam agindo juntos.

Aplicações:
1) A autoridade do evangelho não pode ser substituída por um evangelho falso.

2) Uma experiência genuína do evangelho só começa quando reconhecemos arrependidos a morte de Cristo como sacrifício suficiente por nossos pecados.

3) O evangelho nos alcança para nos libertar e assim mudar a nossa vida eternamente, partindo do presente.
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