O Bom pastor e seus comentários

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sexta-feira, 29 de julho de 2011

John Stott Está com o Senhor.


Faleceu na tarde desta quarta-feira, 27, o líder e evangelista londrino John Stott. Segundo informações do presidente do ministério que carrega o nome do líder, Benjamin Homam, a morte aconteceu às 3:15 (horário de Londres) por complicações relacionadas à sua idade avançada - Stott tinha 90 anos-. Nas últimas semanas, Stott já não vinha se sentindo bem.

Segundo Homam “Stott deixou um exemplo impecável para lideres de ministérios em todo o mundo. Deixou para muitos um amor pela igreja global, e uma paixão pela fidelidade bíblica e amor pelo Salvador”. Ele foi um dos principais expositores bíblicos de nosso tempo. Uma de suas frases mais conhecidas nos círculos acadêmicos era: "Pregação bíblica é pregação expositiva".

Considerado uma das mais expressivas vozes da Igreja Evangélica contemporânea, o inglês Jonh Stott nasceu em 27 de abril de 1921. Foi um agnóstico até 1939, quando ouviu uma mensagem do reverendo Eric Nash e se converteu ao cristianismo evangélico.

Estudou Línguas Modernas na Faculdade Trinity, de Cambridge. Foi ordenado pela Igreja Anglicana em 1945, e iniciou suas atividades como sacerdote na Igreja All Souls, em Langham Place. Lá continuou até se tornar pastor emérito, em 1975. Foi capelão da coroa britânica de 1959 a 1991.

Stott tornou-se ainda mais conhecido depois do Congresso de Lausanne, em 1974, quando se destacou na defesa do conceito de Evangelho Integral – uma abordagem cristã mais ampla, abrangendo a promoção do Reino de Deus não apenas na dimensão espiritual, mas também na transformação da sociedade a partir da ética e dos valores cristãos.

Em 1982, fundou o London Institute for Contemporary Christianity, do qual hoje é presidente honorário. Escreveu cerca de 40 livros, entre os quais: Eu Creio na Pregação (Vida); Ouça o Espírito, Ouça o Mundo (ABU); A Cruz de Cristo (Vida) e Por Que Sou Cristão (Ultimato).
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Fonte: http://noticias.gospelmais.com.br/john-stott-morreu-aos-90-anos-maiores-teologos-escritores-22755.html. Adaptado por Hélio O. Silva.

domingo, 17 de julho de 2011

A Necessidade de Métodos de Estudo Bíblico (Junho de 2003)


A NECESSIDADE DE MÉTODOS DE ESTUDO BÍBLICO

O Estudo da Bíblia é para Todos.

Deus não nos deu as Escrituras simplesmente para tê-las, ou guardadas na estante ou abertas sobre uma mesa no salmo 23 ou 91. O desejo de Deus é que sejamos bons obreiros que manejam BEM a palavra da verdade (II Tm 2.15), pois sua intenção é que seus ensinamentos sejam aplicados à vida de cada um, habilitando-nos para as boas obras de Deus (II Tm 3.16,17).
Logo depois de seu batismo, Jesus passou 40 dias no deserto sendo tentado pelo diabo (Mt 4 e Lc 4). O diabo lança três tentações contra Jesus. Jesus as rebate usando as Escrituras. Satanás também usa as Escrituras para tentar a Jesus citando o Salmo 91.11,12. Ao conferirmos o texto citado por Satanás, constatamos o fato claro de que ele não cita errado o texto, em vez disso, ele faz mal uso da passagem, torcendo a intenção original do salmista.
Assim como Satanás tentou seduzir e enganar a Jesus usando a Bíblia, ele também o faz conosco. A melhor maneira de não cairmos nas armadilhas “bíblicas” do diabo é aprendermos a manejar bem a palavra da verdade (II Tm 2.15).

I. O Mal Uso das Escrituras:
A pergunta a ser levantada é: Como e quando podemos usar mal as Escrituras? Vejamos cinco exemplos simples:

1. Usamos mal as Escrituras quando ignoramos o que ela diz sobre um dado assunto.
A ordenação de homossexuais ao ministério vem se tornando uma prática comum em igrejas estrangeiras, e este movimento vai se fortalecendo também no Brasil, pois já existem “igrejas” fundadas por homossexuais ou simpatizantes em funcionamento. No entanto, a Bíblia condena expressamente as práticas homossexuais (Lv 18.22; Rm 1.26,27, I Co 6.9-11). Podemos ignorar ensinos bíblicos claros por simples desconhecimento ou por pura rejeição deliberada. O segundo caso se constitui em pecado de rebeldia contra Deus.

2. Usamos mal as Escrituras quando tomamos um verso fora de seu contexto.
Isso pode ser entendido de duas formas:
a) Quando isolamos um verso de contexto imediato.
Exemplos clássicos são: Isaías 41.6 (interpretar uma mensagem de otimismo, enquanto o contexto fala de idolatria); Rute 1.16,17 (sermões de casamento, enquanto o texto fala de amizade entre duas mulheres); Eclesiastes 4.9-12 (relacionamento conjugal, enquanto o texto fala de companheirismo em viagens perigosas na região montanhosa da Palestina).
b)Quando isolamos uma afirmação de seu contexto doutrinário mais amplo.
Podemos ler João 16.24 e achar que Deus responderá sempre positivamente qualquer oração que fizermos, mas ao olharmos para Marcos 14.36 e I João 5.14,15 concluímos que não é bem assim, outros fatores precisam ser levados em conta no nosso entendimento de como fazer bom uso da oração em nosso crescimento espiritual.

3. Usamos mal as Escrituras quando fazemos uma passagem dizer o que ela não diz.
Lendo Marcos 16.17,18, muitos afirmam estar ali a obrigatoriedade do falar em línguas como
sinal do batismo do Espírito Santo. Porém, o texto está simplesmente descrevendo que esses acontecimentos acompanharão a Igreja em algumas situações relacionadas à expansão do evangelho, doutra sorte os outros elementos citados no texto (expulsão de demônios, ingestão de veneno etc) também deverão ser interpretados obrigatoriamente como sinais do batismo pois a narrativa do texto está no plural e não no singular (“estes sinais”).

4. Usamos mal as Escrituras quando enfatizamos indevidamente coisas menos importantes dentro do texto.
Será que Judas participou ou não da ceia? De onde veio a esposa de Caim? Paulo pregou ou
não o Evangelho na Espanha? A carta de Paulo aos Gálatas foi enviada à Galácia do norte ou do sul? São questionamentos desnecessários a uma compreensão correta e eficaz do texto, mas que sempre são levantadas como entrave por muitas pessoas. São perguntas interessantes, mas não importantes para o entendimento decisivo da Bíblia.

5. Usamos mal as Escrituras quando tentamos levar Deus a fazer a nossa vontade, em vez de nos submetermos à Sua vontade.
Um rapaz ou uma moça apaixonados lêem Mateus 18.19 e se convencem de que determinada
moça ou rapaz devem casar consigo. Então em “obediência” a esse texto chamam um ou uma colega para orarem a Deus para “pegarem” a moça ou o rapaz de seus sonhos. A Bíblia não foi escrita para isso.

II. A Necessidade de Métodos de Estudo da Bíblia:
Precisamos aprender a “manejar bem a palavra da verdade”, isso significa aprender a usar as regras de interpretação e aplicá-las ao nosso hábito de estudar a Bíblia.
Métodos de estudo não são regras de interpretação, mas linhas de orientação que facilitam a aplicação das regras de interpretação na compreensão do texto sagrado.
a) Ajudam a termos objetividade no estudo.
b) Ajudam no aprendizado, memorização e repasse do ensino.
c) Ajudam na preparação do discipulado e evangelização.
d) Facilitam a formação de convicções bíblicas sólidas.

III. Princípios de Estudo Bíblico:

1. Você deve fazer investigação original. Atos 17.11.
Conferir a verdade é uma atitude nobre. É preciso prestar muita atenção nas afirmações bíblicas. É importante que nossas convicções se formem em torno do que a Bíblia realmente diz.

2. Você deve fazer uma reprodução escrita:
Esta é a diferença básica entre ler e estudar. Quando você aprende a escrever a sua pesquisa, adquire unidade e coerência de pensamento.

3. O seu estudo deve ser constante e sistemático:
Exemplos bíblicos: At 17.11, “todos dias”; Josué 1.8, “dia e noite”; Salmo 1, “dia e noite”. Não estude aleatoriamente (sem rumo certo), mas seguindo um programa que lhe dará objetividade. Exemplo: Ler livros inteiros da Bíblia e tentar compreender a sua mensagem (Ex. João; Habacuque). Escolha assuntos específicos e pesquise-os dentro de cada livro bíblico que esteja lendo no momento (Ex. A Santificação; A Segunda Vinda de Cristo, O Espírito Santo, os Dons Espirituais etc).

4. O seu estudo precisa ser compartilhável:
O objetivo do estudo bíblico é o discipulado (instruir a outros - II Tm 2.2). Você deve buscar o seu crescimento a fim de ser usado por Deus no crescimento dos outros. Deus quer que nos tornemos cooperadores na sua obra (I Co 3.9).

5. Você deve aplicar o seu estudo primeiro à sua própria vida:
Ler e não obedecer é olhar no espelho e depois esquecer a sua aparência (Tg 1.22). O estudo da Bíblia deve ser “pão provado” [1] antes de ser repassado no discipulado a outros.

6. Seja PERSISTENTE:
Esta é a diferença entre a maturidade e a estagnação. Não desista, ainda que seja difícil; o sacrifício sempre valerá a pena, porque Deus abençoa (Sl 126.6).

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Notas:
[1]Harold Cook, O Livro de Monóculos, CEP,São Paulo, p.?
Leia mais em: Métodos de Estudo Bíblico, Walter Henrichsen, Mundo Cristão, 3ª Ed., São Paulo, 1986.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Johnathan Edwards e o Reavivamento (Agosto de 2005)


Literatura Reformada
Jonathan Edwards e o Reavivamento
Rev. Hélio O. Silva, STM[1] .


Introdução
Jonathan Edwards foi um pastor congregacional que viveu no século XVIII, sendo considerado um dos maiores teólogos e pensadores da história dos Estados Unidos. Edwards apoiou alegremente o reavivamento, vendo nele a manifestação genuína do Espírito de Deus, mas também foi um crítico severo dos desvios, exageros e impropriedades que por vezes ocorreram. Uma de suas principais preocupações foi mostrar em seus escritos quais os critérios pelos quais se pode reconhecer a autenticidade de uma experiência religiosa dessa natureza.

1. Jonathan Edwards - Biografia
Jonathan Edwards nasceu em 1703, em Windsor do Leste, Connecticut, sendo filho de um consagrado ministro congregacional. Loyd-Jones descreve-o como tendo um intelecto vigoroso, imaginação brilhante, originalidade admirável e acima de tudo honestidade em todos os seus escritos. Além disso, Edwards era dotado de humildade, modéstia e excepcional espiritualidade, sendo ao mesmo tempo um vigoroso teólogo, um hábil pastor e um grande evangelista[2]. James Packer acrescenta que “era um homem alto, reservado, de voz suave, mente privilegiada e coração modesto”[3].
Edwards ingressou no Colégio de Yale em 1716 onde obteve o grau de bacharel em 1720, onde continuou seus estudos teológicos e trabalhou como professor assistente por algum tempo. Após um breve pastorado numa igreja presbiteriana de Nova York, em 1726, aos 23 anos de idade, ele foi auxiliar o seu avô, Salomão Stoddard, o famoso pastor da igreja de Northampton, Massachusetts.
No ano seguinte, Jonathan casou-se com Sarah Pierrepont, então com 17 anos de idade, filha de um pastor bem conhecido e bisneta do primeiro prefeito de Nova York. Os historiadores destacam a harmonia, amor e companheirismo que sempre caracterizou a vida do casal. Eles gostavam de andar a cavalo ao cair da tarde para poderem conversar e antes de se deitarem sempre tinham juntos os seus momentos devocionais.
Jonathan e Sarah tiveram 11 filhos, todos os quais chegaram à idade adulta, fato raro naqueles dias. Em 1900, um repórter identificou 1400 descendentes do casal Edwards. Entre eles houve 15 dirigentes de escolas superiores, 65 professores, 100 advogados, 66 médicos, 80 ocupantes de cargos públicos, inclusive 3 senadores e 3 governadores de estados, além de banqueiros, empresários e missionários.
Em 1729, com a morte do seu avô, Jonathan tornou-se o pastor titular da igreja de Northampton, na qual, através de sua poderosa pregação (exposição bíblica)[4] , ocorreu um grande reavivamento cinco anos mais tarde (1734-35). O Grande Despertamento tivera os seus primórdios alguns anos antes entre os presbiterianos e reformados holandeses na Pensilvânia e Nova Jérsei, cresceu com as pregações de Edwards e atingiu o seu apogeu no ano de 1740, com o trabalho itinerante do grande reavivalista inglês George Whitefield (1714-1770)[5].
Em 1750, após 23 anos de pastorado, Jonathan Edwards foi despedido pela sua igreja, a razão principal sendo a sua insistência em que somente pessoas convertidas, e que fizessem declaração pública de sua fé, deviam ser recebidas como membros da igreja e participar da Ceia do Senhor, em contraste com a prática anterior do seu avô.
No ano seguinte, Edwards foi para Stockbridge, uma região remota da colônia de Massachusetts, onde trabalhou como pastor e missionário entre os índios. Em 1757, devido a sua excelência como educador e sua fama como teólogo e filósofo foi convidado para ser o presidente do Colégio de Nova Jérsei, a futura Universidade de Princeton. Um mês após a sua posse, fevereiro de 1858, Edwards faleceu devido a complicações resultantes de uma vacina contra varíola.
Packer resume a vida de Edwards na seguinte frase: “Por toda a sua vida, alimentou a sua alma com a Bíblia; por toda a sua vida, alimentou seu rebanho com a Bíblia”[6].

2. Contexto Religioso
Quando Jonathan Edwards iniciou o seu ministério, a Nova Inglaterra, já havia sido colonizada pelos ingleses há cem anos. Os colonos eram, em sua maioria, puritanos calvinistas, que haviam lutado sem muito sucesso por uma igreja mais pura na Inglaterra, então buscaram maior liberdade para as suas convicções no Novo Mundo.
Após um período inicial de sofrimentos e provações amargas, os colonos prosperaram materialmente. No final do século XVII, a vida na Nova Inglaterra era em grande parte pacífica e confortável. A maioria das pessoas pertencia à classe média e o nível educacional era relativamente alto.
Todo esse progresso havia sido alcançado por causa dos valores religiosos e éticos dos puritanos, como o seu amor ao trabalho, sua disciplina de vida, sua rejeição de vícios e a preocupação em serem bons mordomos das bênçãos de Deus.
Porém, juntamente com a prosperidade material, ocorreu um declínio no fervor religioso entre as novas gerações. O cristianismo de muitos se tornou meramente nominal; o mundanismo e a apatia espiritual tornaram-se generalizados. Além disso, o racionalismo e o iluminismo, com sua ênfase na razão e na capacidade humana, também estavam influenciando muitas pessoas. Nesse ambiente desanimador, ocorreu o Grande Despertamento (1720s-40s).

3. Jonathan Edwards e o Reavivamento
A maior contribuição de Jonathan Edwards para a igreja evangélica está nos importantes livros que escreveu como teólogo e intérprete do reavivamento. Curiosamente, sua obra mais conhecida é pouco representativa do seu pensamento como um todo. Trata-se do célebre sermão "Pecadores nas Mãos de Um Deus Irado," que ele pregou na cidade de Enfield, em 1741. A ênfase maior dos seus escritos e sermões não está na ira de Deus, e sim na sua majestade, glória e graça.
Além de muitas conversões e santificação de vidas, o Grande Despertamento também aprofundou uma divisão entre os líderes que eram favoráveis ao reavivamento e aqueles que não eram. O problema ficou mais sério quando, após a obra de pregadores sérios e equilibrados com Edwards e Whitefield, surgiram imitadores sensacionalistas que manipulavam emocionalmente as pessoas. O Dr. Lloyd-Jones diz que Edwards lutou em duas frentes: Contra os adversários do reavivamento, que criticavam as manifestações emocionais do reavivamento. E contra os extremistas; tendentes ao sensacionalismo. Contra o perigo de extinguir o Espírito e contra o perigo de deixar-se levar pela carne e ser iludido por Satanás[7].
Nesse contexto, Edwards propôs-se a defender o reavivamento como obra do Espírito de Deus, ao mesmo tempo em que combateu os excessos e desvios que muitas vezes ocorriam. Ele escreveu cinco obras importantes no contexto dessa controvérsia que encerram a sua teologia do reavivamento.

As obras foram:
Narrativa Fiel da Surpreendente Obra de Deus (1736-37)[8].
Descreve o recente despertamento em sua cidade e regiões vizinhas.

Uma História Sobre a Obra de Redenção.
Sermões pregados em 1737, mas publicados somente em 1744.

As Distintas Marcas da Obra do Espírito de Deus (1741)[9] .
É um pequeno tratado sobre 1 João 4, onde Edwards argumenta que todas essas marcas têm a ver com o aprofundamento da piedade experimental da fé em Deus. Sabemos que o Espírito de Deus atua em avivamento quando somos levados a:
(1) Glorificar a Cristo encarnado.
(2) Agir contra os interesses do reino de Satanás.
(3) Ter grande consideração pelas escrituras.
(4) Seguir a verdade.
(5) Amar a Deus e ao próximo.
Fica claro que o critério do reavivamento não é o tumulto e a agitação das reuniões, mas a presença do fruto do Espírito Santo nas pessoas.

Alguns Pensamentos Sobre O Atual Reavivamento da Religião Na Nova Inglaterra em 1740 (1742).
Analisa o movimento mais amplo. Esta obra baseia-se
parcialmente em algumas profundas experiências espirituais da sua esposa Sarah. Na quarta parte dessa obra, Edwards delineia a forma característica da atuação de Satanás nos reavivamentos. Quando ele descobre que não pode reter a obra da graça de Deus nas pessoas, então ele procura empurrá-las para excessos e extravagâncias, desviando sua atenção de Deus por meio de explorar a força de seus sentimentos. Deus permite a atuação do diabo em meio aos reavivamentos a
fim de tornar evidente, acima de qualquer dúvida que os frutos do reavivamento
são dele e não dos talentos pessoais das pessoas que o recebem[10].

Tratado Sobre As Afeições Religiosas (1746).
Dois resumos dessa obra foram publicados em português: A Genuína Experiência Espiritual (PES, 1993) e Uma Fé Mais Forte Que As Emoções – discernindo a essência da verdadeira espiritualidade (Ed. Palavra, 2008).
É a sua obra mais amadurecida sobre o assunto do reavivamento espiritual. Resultou de uma série de sermões pregados em 1742/3 sobre 1 Pedro 1:8, nos quais argumentou que o cristianismo verdadeiro não se evidencia pela quantidade ou intensidade das emoções religiosas, mas por um coração transformado que ama a Deus e busca o seu prazer. Ele faz uma análise rigorosa das diferenças entre a religiosidade carnal, que produz muita comoção, e a verdadeira espiritualidade, que toca o coração com a visão da excelência de Deus e o liberta do egocentrismo.
A obra se divide em três partes:
Acerca da natureza dos afetos e a sua importância na religião. Edwards busca
provar a sua legitimidade, combatendo a validade de grandes sermões doutrinários
sem um fervor consagrado. Ele não condena a doutrina em si, mas o racionalismo
doutrinário. Para Edwards, a religião verdadeira apóia-se muito nos afetos.
Mostra que não há sinais definidos de que os afetos religiosos são benignos ou não.
Ele alista várias situações que eram apontadas como sinais de que certas
experiências religiosas fossem genuínas. Essas experiências não confirmam, mas
também não negam a genuinidade de qualquer experiência espiritual. Elas devem
ser julgadas por outros critérios mais profundos:
a) Ser seguida de grande emoção não é sinal.
b) Fluência e fervor não provocados por nós não são sinais.
c) Ser acompanhadas de textos bíblicos não é sinal.
d) Ter aparência de amor não é sinal.
e) Afetos religiosos de várias espécies não são sinais.
f) Grandes alegrias que seguem certa ordem não é sinal.
g) Muito tempo e zelo no dever não é sinal.
h) Muitas expressões de louvor, de grande confiança e comoção não são sinais[11].

Mostra quais são os sinais verdadeiros de uma genuína experiência espiritual.
a) Os afetos benignos provêm da influência divina.
b) Seu objetivo é a excelência das coisas divinas.
c) A prática cristã é o principal sinal para nós mesmos e para os outros.

Edwards era um calvinista convicto, por isso também escreveu algumas obras em defesa das convicções reformadas acerca da incapacidade moral e espiritual dos seres humanos e sua profunda necessidade da graça transformadora de Deus: A Liberdade da Vontade (1754) e O Pecado Original (1758). Os escritos de Edwards diferem dos escritos dos demais puritanos por estar livre de seu escolasticismo, apresentando-se mais leves e vívidos[12].

4. A Genuína Experiência Religiosa
Jonathan Edwards avaliou a experiência religiosa à luz das Escrituras e das suas convicções reformadas. O ponto de partida da sua pregação e da sua teologia foi o Deus soberano, em sua majestade, graça e glória. Esse Deus criou o universo e o ser humano para manifestar a sua grandeza e o seu amor. A majestade e a graça de Deus também se revelam de modo supremo no envio de Cristo para redimir os pecadores.
Nenhum reavivamento ou experiência religiosa é genuína se não realçar esse Deus sublime em sua soberania, graça e amor. O critério principal é este: Se quem está no centro das atenções é Deus ou o ser humano. Para que Deus esteja no centro é necessário, em primeiro lugar, que haja nos corações um profundo senso de incapacidade, de dependência de Deus, e de convicção da nossa pecaminosidade. Além disso, é preciso que haja a consciência de que toda genuína experiência religiosa é fruto da atuação do Espírito de Deus, que transforma e santifica os pecadores, capacitando-os a amar e honrar a Deus em suas vidas.
Portanto, todas as teorias de salvação que dão ênfase às obras humanas ou à capacidade humana só desmerecem a grandeza do amor de Deus revelado a nós em Cristo Jesus e tornado real em nossos corações somente pela iluminação do Espírito Santo.
Edwards crê na necessidade de transformação do ser humano. A moralidade externa não é suficiente, daí a importância da conversão. Por outro lado, para aqueles que já são crentes, uma fé simplesmente racional ou intelectual não basta. É preciso que a pessoa se aproxime de Deus não só com o entendimento, mas com os sentimentos. Cabeça e coração (luz e calor) devem funcionar juntos na vida conduzida pelo Espírito. O próprio Edwards era um exemplo disso[13].
Em todas as suas obras Edwards insistiu na importância dos afetos profundos na vida espiritual. Por "afetos" ou "afeições" ele se referia às disposições do coração que nos inclinam para certas coisas e nos afastam de outras. Todas as nossas ações derivam dos nossos desejos: Ou nos comprazemos no Deus vivo e buscamos servi-lo e honrá-lo, ou somos cativos de desejos voltados para alvos menores.
Edwards advertiu contra dois grandes erros no reavivamento. Primeiro, o mero emocionalismo: Os avivalistas podem simplesmente excitar as emoções das pessoas e produzir falsas conversões. Emoções intensas não são uma evidência clara acerca de uma experiência religiosa genuína. No seu grande Tratado Sobre as Afeições Religiosas, Edwards delineou cuidadosamente testes bíblicos quanto a uma experiência religiosa genuína; eles incluíam uma ênfase na obra graciosa de Deus, doutrinas consistentes com a revelação bíblica, e uma vida marcada pelo fruto do Espírito.
O segundo erro é dar ênfase não a Deus, mas às respostas humanas a Ele, algo muito comum hoje com toda a celebração do eu, as experiências pessoais, os testemunhos auto-congratulatórios. Edwards insistiu em que a essência da verdadeira espiritualidade é ser dominado pela visão da beleza de Deus, ser atraído para a glória das suas perfeições, sentir o seu amor irresistível.
Portanto, na verdadeira experiência cristã, o conhecimento de Deus é algo sensível, experimental. A verdadeira experiência cristã consiste não somente em conhecer e afirmar doutrinas cristãs verdadeiras, por importantes que sejam, mas é um conhecimento afetivo, ou a consciência das verdades que a doutrina descreve. Difere do conhecimento especulativo, assim como o sabor do mel difere do mero entendimento de que o mel é doce. O cristão, diz Edwards, "não apenas crê racionalmente que Deus é glorioso, mas tem em seu coração o senso da majestade de Deus."[14]
Se nossos corações são transformados pelo amor de Deus, assim devem ser transformadas as nossas ações. Se somos mudados ao contemplarmos a beleza do amor de Deus, então amaremos de maneira especial todo ato de virtude que reflete o caráter amoroso de Deus.

Conclusão
Jonathan Edwards acreditava na importância e necessidade do reavivamento. Ele viu o Grande Despertamento como uma obra do Espírito de Deus, revitalizando e capacitando a igreja para a sua missão no mundo. Ao mesmo tempo, ele estava consciente de desvios, excessos e até mesmo de atuações satânicas que produziam excentricidades, descontrole emocional, ostentação e escândalos.
Porém, ele entendia que tais problemas não invalidavam os aspectos positivos do reavivamento e, mais ainda, que alguns dos "fenômenos" ou "manifestações”, ainda que inusitados, eram admissíveis diante das experiências profundas da graça de Deus que muitas pessoas estavam tendo, inclusive a sua esposa. Tais coisas, em si mesmas, nada provavam.

Os critérios que realmente indicavam se as conversões e o despertamento eram genuínos ou não eram os frutos visíveis:
a) Convicção de pecado,
b) Seriedade nas coisas espirituais,
c) Preocupação suprema com a glória de Deus,
d) Apego profundo às Escrituras,
e) Mudanças no comportamento ético,
f) Relacionamentos pessoais transformados
g) Influência transformadora na comunidade.

Como podemos identificar um verdadeiro reavivamento? James I. Packer nos chama a atenção para dois pontos:[15]

Cuidado com a falácia sobre os tempos antigos.
Quando formamos um conceito sobre reavivamento baseado na história de um reavivamento particular do passado e aplicamos tal conceito como padrão para qualquer movimento de reavivamento futuro. O perigo é duplo.
Corremos o risco de fazer uma avaliação apressada. A observação prévia não
consiste em critério seguro de avaliação para a obra de Deus. As pessoas serão
tentadas a escolher o que gostam e a rejeitar o que não gostam, esquecendo-se de
que Satanás pode produzir as formas externas do reavivamento sem, contudo,
revelar a presença de Deus.
Dificultamos o reconhecimento de qualquer reavivamento futuro, pois
construímos um molde de medida, negando a criatividade da sabedoria soberana e
livre de Deus. Não há base para supormos que os aspectos externos do próximo
reavivamento serão idênticos ao do anterior.

Cuidado com a falácia romântica.
Quando imaginamos que a vinda de um reavivamento resolverá todos os problemas da igreja, resolvendo todos os problemas e trazendo paz definitiva. Um reavivamento livra a igreja dos problemas de apatia e da indiferença quanto à fé, mas, por outro lado, cria muitos outros problemas relacionados a uma vitalidade espiritual desordenada e indisciplinada. É comum as pessoas, levadas pela influência do momento, perderem o equilíbrio cristão, cedendo espaço ao orgulho espiritual, ilusões, censuras desmedidas aos outros e modos extravagantes de agir. Pessoas não convertidas podem se tornar “entusiastas da fé” e acabarem-se por desiludirem-se por meio de escândalos e se afastarem definitivamente. Não existe reavivamento sem pedras de tropeço.

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Notas:
[1] O autor é pastor-auxiliar na Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia-GO desde 2002. Professor de História do Pensamento Cristão, da Igreja Presbiteriana do Brasil e das Missões no Seminário Presbiteriano Brasil Central (SPBC). Mestre em teologia Histórica pelo e Doutorando em Ministério (DMin) pelo CPAJ.
[2] D. M. Loyd-Jones, Os Puritanos, Suas Origens e Seus Sucessores, PES, p. 361.
[3] James I. Packer, Entre Os Gigantes de Deus, Fiel, p.335.
[4] D. M. Loyd-Jones, Os Puritanos, Suas Origens e Seus Sucessores, PES, p. 365.
[5] Sobre o reavivamento entre os presbiterianos, ver o artigo de: Frans L. Schalkwijk, "Aprendendo da História dos Avivamentos," em Fides Reformata II-2, p. 61-68.
[6] J. I. Packer, Entre Os Gigantes de Deus, Fiel, p.336.
[7] D. M. Loyd-Jones, Os Puritanos, Suas Origens e Seus Sucessores, PES, p. 368.
[8] O título completo é: Uma Narrativa da Surpreendente Obra de Deus na Conversão de Centenas de Almas em Northampton e Nas Cidades e Vilas Vizinhas (Packer, Entre os Gigantes de Deus, p.342).
[9] Publicado em português com o título: A Verdadeira Obra do Espírito, por Ed. Vida Nova.
[10] Packer, Entre Os Gigantes de Deus, Fiel, p.352.
[11] D. M. Loyd-Jones, Os Puritanos, Suas Origens e Seus Sucessores, PES, p. 369.
[12] Ibid, p.356.
[13] D.M. Lloyd-Jones, Jonathan Edwards e a Crucial Importância de Avivamento, PES, 12-18.
[14] Citado por Alderi S. Matos, sem indicação de fonte.
[15] Packer, Entre os Gigantes de Deus, p.343-345.
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