O Bom pastor e seus comentários

O Bom pastor e seus comentários

quarta-feira, 17 de abril de 2019

ESTUDO 11 = O Caminho da Sabedoria

Igreja Presbiteriana Jardim Goiás
Estudos de Quarta-Feira – 1º Semestre/2019
O DEUS QUE NOS GUIA E GUARDA - James I. Packer - Ed. Vida Nova

Rev. Hélio O. Silva - 17/04/2019


ESTUDO 11 = O Caminho da Sabedoria (p. 157 a 182)

Comece por aqui
          Quem tem jogos de tabuleiro em casa já se acostumou a procurar no tabuleiro a expressão: “Start”, “início” ou “comece por aqui.

          Quando falamos sobre ser guiados por Deus o primeiro passo necessário para descobrir e seguir a vontade de Deus nas situações específicas é sempre estabelecer a obediência a Deus como ponto de partida e fundamento de nosso relacionamento com Deus para o resto de nossas vidas. Deus nunca nos guiará por/num caminho 
expressamente proibido por Ele em sua Palavra, simplesmente porque não é da sua vontade andarmos por ali! Não há sabedoria em tentar andar com Deus num caminho onde Deus não estará.
         
1º) A centralidade da sabedoria
          As Escrituras nos orientam a “caminhar com sabedoria”, ou seja, comportar-se e viver com sabedoria. A metáfora do caminhar implica em entender que a sabedoria deve permear e conduzir cada passo, cada decisão a ser tomada. “Andar nele” (Cl 2.6,7) é o correspondente neotestamentário para caminhar com sabedoria no Antigo Testamento.

          Paulo elabora detalhadamente o significado de andar em sabedoria em Efésios 4 e 5. A palavra que usa para expressar esse conceito é “andar”. Veja: “andeis de modo digno da vocação” (4.1); “seguindo a verdade em amor...” (4.15); “não andeis como andam os gentios...” (4.17); “e andai em amor” (5.2); “andai como filhos da luz” (5.8); “vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios” (5.15); o verso 17 conclui a seção: “por essa razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender  qual a vontade do Senhor”. Rejeitar a sabedoria que vem de Deus é receber o que mais se deseja, uma vida sem Deus.

          A sabedoria nos conduz a “remir o tempo” (Ef 5.16). A palavra “tempo” aqui significa “cada oportunidade”. Para nós cristãos o tempo não significa apenas a sucessão das horas, mas, oportunidades, onde as horas estão repletas de momentos que serão usados para o avanço do reino e da glória de Deus na terra. Aproveitar esses momentos só será possível se aplicarmos a sabedoria que aprendemos de Deus. Para nós esse é o significado de fazer bom uso de nosso tempo.

Compreender a vontade de Deus (Ef 5.16) está ligado a Experimentar a vontade de Deus (Rm 12.2), onde “experimentar” é tradução de “provar por meio de testes” (dokimazô). Logo, a “vontade de Deus” pretendida por Paulo não é a vontade geral ou a vontade para a vida toda. Paulo fala da vontade de Deus para cada situação específica em que nos encontrarmos. Paulo está falando de qual o melhor uso pode ser feito dessa oportunidade (tempo) para agradar a Deus e glorificar o seu nome. Como podemos usar com sabedoria essa situação para servir e agradar a Deus em nosso viver?

Por isso, nosso conceito de sabedoria deve levar em conta a origem sobrenatural da sabedoria divina nas nossas vidas. Quando Cristo falou sobre o novo nascimento com Nicodemus (João 3) afirmou que o Espírito Santo (e o que dele é nascido - Jo 3.7,8) é como o vento. Pode ser sentido, percebe-se a sua força, mas não se pode controlá-lo. O sentido para nós não é que podemos fazer o que quisermos, mas de que a força que nos move é incontrolável e imprevisível (não domesticável) no sentido humano.

          Para quem não está dentro da dinâmica da vida no Espírito, mas observa do lado de fora, a maneira como os cristãos vivem e se comportam é desconcertante. Eles não entendem de onde o cristão vem, para onde vai e o que ele busca, porque não conhecem a Deus como o cristão conhece.

2º) A natureza da sabedoria
          O dom divino da sabedoria é para todos. Sabedoria não depende de inteligência, mas principalmente de obediência a Deus, que é o doador da sabedoria. Sabedoria é a capacidade de aplicar os princípios da verdade de maneira a levar uma vida correta. É particularmente interessante perceber que a sabedoria sobressai exatamente no trato e solução de questões bem específicas. A sabedoria nos leva a apreciarmos a Deus em tudo e a apreciarmos tudo em Deus.

O livro de Eclesiastes nos mostra que o grato contentamento foi, é e sempre será um elemento-chave na piedade bíblica, aconteça o que acontecer. Em Tiago, encontramos que a vida de sabedoria é uma vida de semelhança a Cristo. As Escrituras nos apresentam sete elementos que definem a sabedoria:

1.    A sabedoria diz respeito ao entendimento (Pv 3.13-15; 4.7,8).
Na Bíblia ela é contrastada com a insensatez. Entendimento é saber como viver em resposta à revelação de Deus (Pv 2.1-5). Sabedoria é refletir, aprender e desaprender. O sábio, ouvindo conselhos, desaprende o que está fazendo errado para aprender a sabedoria do fazer certo.

2.    A sabedoria diz respeito à adoração (Pv 1.7).
“O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”, quem não começa por aqui, não aprenderá a verdadeira sabedoria. Conhecimento sem reverência a Deus não é sabedoria. A sabedoria nos leva à adoração, entrega e obediência àquele que reconhecemos como infinitamente bom e sábio (Pv 3.5-8).

3.    A sabedoria diz respeito a objetivos e alvos que deveríamos estabelecer para nossa vida.
Ela nos ensina a voltar nossos olhos para objetivos que realmente valem a pena almejar. O objetivo nº 1 é conhecer a Deus. Todos os demais derivam desse: Amar o próximo como a si mesmo e os relacionamentos pessoais; uma vida e participação comunitária abençoadora; e as escolhas particulares incluindo hobbies. A sabedoria nos permite formular e focar nossos objetivos em nossas diversas áreas de atividades (Ec 2.13,14).

4.    A sabedoria diz respeito à estratégia.
A estratégia é o que fazer para alcançar o alvo. Provérbios explora essa questão introduzindo a capacidade de ouvir conselhos de outros, o que nos ajuda a não cair em armadilhas (Pv 10.17; 12.15, 13.10; 19.20). 

5.    A sabedoria diz respeito ao relacionamento (Pv 14.21; 25.21,22).
O hábito de sempre procurar o bem do outro é prioritário na piedade cristã. O sábio piedoso procurar amar o próximo mesmo quando o próximo não age reciprocamente.

6.    A sabedoria diz respeito ao domínio próprio (Gl 5.23; Pv 25.28).
Dominar-se é não perder a cabeça quando estiver sob pressão. A figura bíblica de uma cidade destruída e sem muros é uma metáfora arrasadora para quem quer viver sem autocontrole (Pv 25.28). O domínio próprio é caracterizado por discrição (Pv 14.17); grandeza de espírito (Pv 14.29); sabedoria (Pv 29.11); comedido nas palavras (Pv 29.20).

7.    A sabedoria diz respeito à humildade (Pv 17.10).
A humildade se revela na aceitação do que você não pode mudar, na correção do que você pode mudar e nas quais você precisa mudar. A humildade se mostra importante diante da repreensão justa e sábia (Pv 15.31; 25.12). A sabedoria é humilde (Tg 3.13).

Conclusão
          O Senhor Jesus é o nosso modelo de sabedoria, pois ele é a sabedoria encarnada, em pessoa (1 Co 1.30). Nele estão ocultos todos os tesouros da sabedoria (Cl 2.2,3).

Motivos de oração
1.    Ore para que você não ignore onde deve lançar os fundamentos de uma vida sábia na presença de Deus e começar por ali.

2.    Ore para que Deus oriente sua busca por sabedoria e para que ele mesmo seja a sua sabedoria.

3.    Ore para que Deus te faça sábio(a) quanto a seu comportamento, palavras e objetivos de vida.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Estudo 10 = Guiados Pela Mente de Deus

Igreja Presbiteriana Jardim Goiás
Estudos de Quarta-Feira – 1º Semestre/2019
O DEUS QUE NOS GUIA E GUARDA - James I. Packer - Ed. Vida Nova

Rev. Hélio O. Silva - 10/04/2019


ESTUDO 10 = Guiados Pela Mente de Deus (p. 139 a 153)

Introdução
Oque significa ser guiados pela vontade revelada de Deus? Dirigir-se pelos comandos de Deus, pelo Livro de Deus, pela Lei de Deus e pela mente de Deus. Trataremos do último ponto nesse estudo.

1º) Sim e não
          Embora a Lei de Deus seja uma expressão fiel da mente de Deus, temos de reconhecer que a revelação verbal nas Escrituras não abarca TODA a mente de Deus. Deus não cabe dentro de todas as palavras das Escrituras. A revelação verbal é suficiente para nos revelar a Deus, mas não o revela completamente a nós. A revelação especial é composta das escrituras inspiradas e da revelação do Filho de Deus na encarnação. 

Isso significa que embora as Escrituras sejam nossa única regra de fé e conduta nós adoramos o Deus das Escrituras e não as próprias Escrituras sagradas (Bibliolatria). Nós obedecemos às Escrituras para aprender a andar com Deus, glorificando-o e apreciando-o por toda a nossa vida.

2º) Situações mais complexas ou “belas confusões”
          Na vida cristã enfrentaremos situações mais complexas que exigirão mais que apenas saber textos bíblicos de cor para aplica-los a elas. Nesses momentos será preciso praticar um tipo de reflexão, alicerçada na oração e unida ao raciocínio iluminado por princípios bíblicos a fim de escolhermos o que promete trazer mais bem e menos mal.

          Esse tipo de discernimento complexo é orientado pelo grau de maturidade e profundidade de nosso relacionamento com Deus e com a Sua Palavra.


3º) Equilíbrio na distinção de princípios de conduta
1.     Entender a tradicional distinção entre lei moral e lei positiva.
A lei positiva é a lei promulgada como meio para atingir um fim, cuja força vinculativa provém inteiramente da decisão do legislador e que pode ser alterada por ele quando as circunstâncias favorecerem (Exemplos: limite de velocidade; alíquotas de imposto; poderes políticos). Essas leis preveem sanções inerentes a elas mesmas válidos pelo tempo em que estiverem em vigor.

Existem leis positivas na Bíblia, como as que Israel deveria praticar assim que entrasse na Terra Prometida, as leis civis, as leis referentes ao Tabernáculo, o sacerdócio e os rituais de sacrifício. Hebreus explica que todas essas coisas eram “tipos” (padrões antecipados e sombras que viria depois), pois apontavam para Cristo e foram todas substituídas por seu ministério quando inaugurou o verdadeiro relacionamento de fé, do qual é o mediador (p.141).

Packer situa como lei positiva tipológica os rituais de purificação de Levítico. Essa impureza ritual tipificava a contaminação espiritual causada por todas as violações da Lei de Deus, que tornavam os infratores abomináveis aos olhos de Deus. Essa foi a estratégia pedagógica de Deus para deixar evidente a presença do pecado e a abrangência de sua contaminação na vida de seu povo. Jesus insistiu que é o pecado e somente o pecado que nos contamina, e por isso cancelou a categoria de alimentos impuros (Mc 7.19). O Novo Testamento é inteiramente desprovido da ideia de algumas coisas criadas podem contaminar enquanto outras não (1 Tm 4.3,4). Logo, a lei positiva (ritual e política) instituída por Deus é cumprida e revogada pelo próprio Deus pois tinha, na mente de Deus um caráter temporário.

A adoração só é aceitável quando nos aproximamos de Deus com mãos e coração purificados pela confissão dos nossos pecados através da mediação de Jesus Cristo (1 Jo 1.9), visto que a Lei moral, que reflete o caráter moral de Deus é permanente e nunca muda.

2.     Entender a verdadeira extensão e a unidade interna da lei moral.
Temos muita facilidade em praticar uma virtude ou imperativo em detrimento de outro, mas Jesus Cristo, que é o nosso modelo de obediência a Deus, personifica todas as virtudes divinas. O cumprimento da lei de Deus é a imitação de Cristo e vice-versa. Entendemos, por meio de Cristo, que a lei não está nos dizendo simplesmente para fazer isso ou aquilo, mas sim para procurarmos ser certo tipo de pessoa que se comporta de determinada maneira.

Para isso precisamos adotar um forte senso de quem somos em Cristo, uma forte consciência da grandeza da graça de Deus em nos salvar e de uma ardente paixão em honrá-lo, sabedores de que o cumprimento da lei pelo cristão também não é uma questão individual, pois precisamos ajudar uns aos outros a discernir o melhor curso de ação para uma vida piedosa e consagrada.

3.     Entender o princípio do ajuste cultural em contraste com adaptação cultural.
Uma adaptação normalmente envolve mudar a substância de alguma coisa para encaixá-la em um novo cenário. Um ajuste pode mudar a forma de fazer sem alterar a substância em sua essência. A substância do ensino bíblico é transcultural, contudo, sua forma é situacional e culturalmente condicionada.

Exemplo: a prática do ósculo santo (beijo) - Rm 16.16; 1 Co 16.20; 2 Co 13.12; 1 Ts 5.26; 1 Pe 5.14. O beijo entre pessoas do mesmo sexo em várias culturas é um cumprimento respeitável, comum e expressão de amizade. Noutras culturas o beijo é carregado de conotações sexuais que o afastam de ser uma expressão de amizade. Logo, J. B. Philips em suas cartas às Igrejas Jovens, uma paráfrase do Novo Testamento mudou a tradução para manter o significado pretendido; “cumprimentem-se com um caloroso aperto de mão”. No Brasil poderíamos parafrasear com “um afetuoso abraço”.

Outro exemplo seria o caso da idolatria. Embora muitas pessoas não se curvem em adoração a imagens de metal, fazem-no diante de imagens mentais (p.147). Calvino já dizia que nosso coração é uma fábrica de ídolos, para os chamados “ídolos do coração”. Todos aqueles que dizem “Minha concepção de Deus é...” ou “Eu prefiro pensar em Deus como...” já estão quebrando o segundo mandamento antes de chegar ao final de sua frase, pois rejeitam a revelação que Deus faz de si mesmo nas Escrituras, substituindo-a por uma particular.

4.     Compreender o duplo efeito ou as consequências não pretendidas e indesejáveis.
Nossas decisões, ainda que baseadas em discernimento baseado em critérios bíblicos, podem causar efeitos colaterais não pretendidos. Fazer o que é certo em algumas situações implicará em ter de fazer o que causará o menor mal possível. Sempre que algum mal for inevitável, escolher o mal menor é sempre a coisa certa a fazer (p.149).

Conclusão
          Seguir a direção de Deus com leal perseverança mais cedo ou mais tarde nos levará a problemas, tristezas e mágoas que, se tivéssemos seguido por outro caminho (não aprovado por Deus) poderíamos ter evitado. Consola-nos muito o fato de que a decisão por nossa redenção custou tão caro em sofrimento ao nosso Salvador, mas que depois de ver o fruto do penoso trabalho de sua alma, ficou satisfeito (Is 53.11,12). Nós também teremos de passar pelo Jardim do Getsêmani (Mt 26.36-46) algumas vezes, ou teremos de atravessar o vale da sombra da morte (Sl 23.4). Mas a verdade que não muda, é que se seguimos o caminho do nosso pastor, “não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo” (Sl 23.4).
  
Motivos de oração
1.     Ore por aprofundamento no conhecimento de Deus.

2.     Ore por despertamento no estudo das Escrituras.

3.     Ore por aprender a compartilhar seu crescimento e dificuldades com irmãos confiáveis dentro a família cristã.

Estudo 09 = Guiados Pela Palavra de Deus

Igreja Presbiteriana Jardim Goiás
Estudos de Quarta-Feira – 1º Semestre/2019
O DEUS QUE NOS GUIA E GUARDA - James I. Packer - Ed. Vida Nova

Rev. Hélio O. Silva - 03/04/2019


ESTUDO 09 = Guiados Pela Palavra de Deus (p. 117 a 138)

Introdução
A tua Palavra é lâmpada para meus pés e luz para meu caminho (Sl 119.105).

A nossa vida adulta é composta de três coisas: Descoberta, definição de uma direção e tomada de decisões. Descobrir qual nosso lugar no mundo criado por Deus e como respondemos positiva ou negativamente a ele e como nos relacionamos com os outros; Definir nossos objetivos na vida e como agindo intencionalmente os alcançaremos e decidir e firmar nossos compromissos a respeito de tudo isso.

Como pessoas humanas precisamos estar conscientes de que a vida é marcada pelo aspecto relacional, por deliberações e responsabilidades.

A visão bíblica da humanidade toma por certo a realidade do pecado na experiência humana contínua e as ações da graça do Deus-redentor que governa e sustenta todas as coisas. Como cristãos, cremos que a essência da vida é conhecer a Deus (Jo 17.3), percebendo sua presença e ações no mundo criado; nosso objetivo definido é viver para a sua glória apreciando-o em adoração e obediência; todas as nossas decisões baseiam-se no compromisso de em tudo o que fizermos ou tentarmos fazer, sermos guiados por sua vontade revelada.

O que significa sermos guiados pela vontade revelada de Deus? Dirigir-se pelos comandos de Deus, pelo Livro de Deus, pela Lei de Deus e pela mente de Deus. Trataremos dos três primeiros nesse estudo.

1º) Guiados pelos comandos de Deus
          Deus se comunica conosco, revelando sua vontade, promessas e mandamentos. Ele o faz utilizando a linguagem. O deus da Bíblia é o Deus que fala conosco de modo indicativo (o que precisamos saber) e de modo imperativo (o que precisamos obedecer). Isso significa:

a) O Deus criados fez promessas, as cumpriu e continuará a cumpri-las. As promessas de Deus moldam nosso relacionamento com ele, logo, aqueles que Deus colocou sob suas asas também estão sob seu comando.

b) Jesus de Nazaré é o Deus-encarnado, que veio para proclamar a vontade de Deus e salvar pecadores. O modo como cada ouvinte responde à sua Palavra determinará o destino de cada um (Mt 7.24-27).

c) Por meio de Cristo, Deus entrou em uma aliança com seus adoradores. Isso identifica a Igreja como o povo de Deus que deve viver de acordo com os seus mandamentos estabelecendo a conformidade com a aliança o instrumento de medição da relação de Deus com o seu povo.

2º) Guiados pelo Livro de Deus
          O livro de Deus é a Bíblia, um documento histórico que registra a revelação redentiva de Deus e as narrativas de seu relacionamento pactual com o seu povo. As figuras de Adão, Noé, Abraão, Moisés, Davi e Jesus Cristo são a espinha dorsal da aliança.

Chamar a Bíblia de Palavra de Deus implica três constatações: (1) Tudo o que a Bíblia ensina é verdade vinda de Deus (autoridade); (2) Deus orientou todo o processo de composição das Escrituras Sagradas (inspiração); (3) Quando o Espírito Santo abre os olhos espiritualmente cegos do coração humano, as pessoas percebem a fonte divina da Bíblia, na mesma medida auto evidente em que percebem a divindade de Jesus de Nazaré.

Por isso, os leitores da Bíblia sentem reiteradamente que Deus está falando com eles de forma significativa desde o início de sua caminhada na fé (2 Tm 3.16). Isso não permite uma leitura aleatória da Bíblia como se fosse algo mágico, para se buscar conhecer a vontade de Deus; ainda que possa parecer piedoso, é uma prática supersticiosa e errônea.

A leitura sistemática e completa da Bíblia nos coloca em contato com as narrativas e os imperativos divinos que devemos conhecer e obedecer.

Leia constantemente. Leia diariamente. Leia completamente. Leia para conhecer a Deus, amá-lo e obedecê-lo.

3º) Guiados pela Lei de Deus
          A lei de Deus é toda prescrição para a vida cristã dada pelo livro de Deus. A Lei de Deus é a interpretação aplicada da Bíblia em sua totalidade (p.129). Ela é toda a prescrição para viver em aliança com Deus (p.133).

O sentido da palavra hebraica “torah” (Lei) não significa essencialmente uma lei pública, mas principalmente uma instrução doméstica marcada pela admoestação, revestida de autoridade, porém afetuosa, que um pai temente a deus dá a seus filhos e aos que convivem no contexto familiar onde é o cabeça. A palavra grega “nomos” teve o seu sentido ampliado ao ser escolhida para traduzir a palavra hebraica “torah”. Sem perder o caráter autoritativo, a torah embutiu o caráter relacional no contexto do mandamento e da obediência. Isso quer dizer a obediência inclui esperança, louvor e oração tornando a obediência em uma filosofia de vida uma declaração cabal de como o crente em Deus deve viver nesse mundo.

O decálogo, que é o coração da Lei, aponta para uma relação dupla na caminhada da fé. Uma relação de amor com Deus e amor com o próximo (Mt 22.37). Depender, na linguagem de Jesus é “estar ligado, dependurado”. Obediência que não está dependurada nisso não é obediência a Deus.

Nosso próximo é quem está conosco, independente se o conhecemos ou gostamos dele.

          Viver pela Lei de Deus não é decorar preceitos, mas a obediência dentro de um relacionamento de fidelidade e amor; para com Deus e para com o próximo debaixo de Deus. O legalismo é o pecado que assedia as pessoas religiosas que não conhecem a graça de Deus, tornando-se um beco sem saída espiritual. A Lei da liberdade (Tg 1.25; 2.12) é a lei que nos liberta da condenação do pecado permitindo-nos gozar da dignidade, felicidade e satisfação para o que fomos libertados e nunca uma permissão para viver a vida como acharmos melhor (e assim renovar a prática do pecado). Cristo nos libertou do pecado para vivermos como filhos de Deus (Jo 8.31,32, 34-36). 

Estar debaixo da graça e não da Lei, significa que não podemos confiar na Lei como um sistema de salvação e de manutenção de status de independência diante de Deus, mas estarmos inteiramente debaixo e dependentes dos propósitos de Deus para nós (Rm 6.14). É esse o sentido de estar debaixo da Lei de Cristo em 1 Coríntios 9.21).

A lei de Cristo é uma realidade trans-histórica, transcultural e transdenominacional. Está além e acima de nacionalidade e das gerações. Isso define que os fundamentos morais e espirituais da verdadeira religião nunca mudam. Viver pela Lei de Deus sempre será seguir a direção divina no cotidiano de nossas vidas.

Conclusão
          Nossa relação com as Escrituras precisa ser colocada no coração de nossa relação com Deus. Não como uma bibliolatria, mas como o instrumento apropriado, determinado pelo próprio para nos conduzir até o conhecimento dele e continuar nos conduzindo pelo caminho por Ele e com Ele.

Motivos de oração
1.     Ore para na leitura diária da Bíblia, Deus fale consigo.

2.     Ore para que desvende seus olhos para conhecer as maravilhas da Lei de Deus.

3.     Ore para que a tentação do legalismo não azede sua relação pessoal com Deus.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Oh Se Houvesse Mais Cinquenta Ministros!


Oh, Se Houvesse Mais Cinquenta Ministros!

Em seu livro Igreja Presbiteriana no Brasil - da Autonomia ao Cisma, o Rev. Boanerges Ribeiro (p. 74-94) faz um resumo de uma longa viagem do Rev. John Boyle por Goiás, entre 02/05 a 02/08/1888. Essa viagem de Boyle foi registrada no periódico The Missionary, janeiro/1889, único exemplar faltante na coleção do Arquivo Histórico da IPB, em São Paulo!
Segundo os historiadores da IPB, o Rev. Boyle fez três viagens evangelísticas por Goiás. A primeira foi em 1884, quando veio à procura de uma família que havia sido convertida pela leitura das Escrituras e já fazia quatorze anos que não frequentava às missas católicas. Boyle a encontrou em Santa Luzia; onde pregou, batizou e fundou a primeira Igreja Presbiteriana em Goiás. A segunda foi em 1886, para visitar a igreja de Santa luzia e sua congregação nos arredores de Formosa. A terceira é essa maior de 1888, passando por, Catalão, Entre Rios, Caldas Novas, Morrinhos, Alemão, Goiás, a capital da província; Jaraguá, Meia Ponte, Corumbazinho, Santa Luzia e Formosa.
Entretanto, nas minhas pesquisas no Arquivo Histórico da IPB em São Paulo, encontrei o relato de uma quarta viagem de Boyle a Goiás, não registrada nos livros da História da IPB, ocorrida entre 19/06 a 09/1889, publicada no mesmo periódico, The Missionary, em duas partes: fevereiro/1890 (p. 74-78) e março/1890 (p. 110-113).
Seu itinerário nessa viagem de três meses foi: Bagagem-MG-Três Ranchos-GO, Catalão, Santa Luzia, Bonfim, Pouso Alto, Brejo Alegre-MG e Bagagem. Boyle pregou tanto nas vilas quanto em várias fazendas, sempre para bom público, realizando batismos, profissões de fé, celebração da ceia e até casamentos.
Transcrevo abaixo um pequeno trecho do relato de sua primeira visita a Pouso Alto (Piracanjuba), retirado da página 111 do The Missionary, março/1890:
Em Pouso Alto fomos recebidos com entusiasmo, As pessoas nunca tinham visto protestantes, mas não poderíamos ter sido mais calorosamente recebidos por amigos muito queridos. O tribunal foi posto ao serviço do Sr. Boyle, e quando a noite chegou, cerca de trinta dos principais homens do lugar veio até a nossa porta para acompanhá-lo até o local. A sala do tribunal estava repleta de mulheres e crianças, enquanto os homens enchiam a rua do lado de fora. Sr. Boyle pregou na porta para que todos dentro e fora pudessem ver e ouvir, e todos escutaram com a maior atenção. Sr. Lourenço vendeu bem (Bíblias) aqui. As senhoras das melhores famílias vieram me visitar e foram muito gentis e boas. Todas as pessoas imploraram ao Sr. Boyle para ficar mais tempo, e foram muito sinceras em querer que nos mudássemos para lá para viver (ali). Oh, se houvesse cinquenta ministros nesta parte interior do país para dar progresso a estas oportunidades de ouro.
       Esse relato de Boyle deixa transparecer, além da boa receptividade das pessoas à pregação protestante, um forte senso de urgência devido a carência de obreiros para o trabalho de evangelização e plantação de Igrejas em nosso Estado, que explode na expressão: “Oh, se houvesse cinquenta ministros...”. Lennington havia implorado por apenas mais seis obreiros quando percebeu a força da penetração do presbiterianismo em Brotas-SP, vinte anos antes de Boyle vir a Goiás!
Depois dessa viagem, Boyle não voltaria novamente a Goiás, pois veio a falecer em outubro de 1892, pouco mais de dois anos após essa viagem tão frutífera. Deus nos dá oportunidades de ouro, e nem sempre estamos prontos para investir e avançar. A palavra que traduzi por “progresso” na citação acima é “improve”, que significa basicamente “melhorar”, “fazer melhorias”. Quem vem depois pode fazer progredir, pode fazer melhorar o trabalho, pois edificará sobre o fundamento já lançado pelos pioneiros. É hora de avançar! É tempo de fazer melhor!
Com amor, Pr. Helio.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Estudo 08 = Quatro Princípios Bíblicos Chave Para Aprendermos Andar na Verdade - Parte 2

Igreja Presbiteriana Jardim Goiás
Estudos de Quarta-Feira – 1º Semestre/2019
O DEUS QUE NOS GUIA E GUARDA - James I. Packer - Ed. Vida Nova

Rev. Hélio O. Silva - 27/03/2019


ESTUDO 08 = Quatro Princípios Bíblicos Chave Para Aprendermos Andar na Verdade - parte 2 (p. 100 a 115)

Introdução
Precisamos desenvolver como hábitos quatro princípios bíblicos chave para aprendermos a temer a Deus para andarmos na verdade (Sl 86.11). São eles: Saúde, hábitos, coração e santidade.
Nesse estudo trataremos dos dois últimos.

1º) Coração
Princípio nº 3: Os hábitos de vida são frutos dos desejos do coração.

A repetição persistente forma hábitos, que não devem ser confundidos com os vícios, pois hábitos são saudáveis e vícios são destrutivos para a formação do caráter. A única questão em que são iguais é que ambos podem começar com um desejo casual, que se for alimentado, crescerá e controlará nossas ações.

Um mecanismo que precisa ficar claro para nós é que o desejo alimenta o hábito e este, por sua vez, alimenta o desejo, e a pessoa cai mais e mais sob o poder de ambos. Desejo santos levarão a hábitos santos; desejos pecaminosos levarão a hábitos pecaminosos.

Quando o desejo do coração se voltar para conhecer, amar, agradar, servir, exaltar e glorificar a Deus, mais e mais encontrará expressão em nosso comportamento cotidiano, aprofundando e enraizando-se no nosso coração. A formação de hábitos deveria receber mais atenção de nossa parte como ferramenta útil para a santificação pessoal.

Todavia, também precisa ficar evidente que o desejo nem sempre assume a mesma forma em termos psicológicos. O desejo pode ser apaixonado, calmo, físico, intelectual ou até mesmo histérico, variando sua intensidade de pessoa para pessoa. Muitas vezes não o tom sentimental, emocional ou moral que define a eficácia ou a profundidade de um desejo, mas sua capacidade de invadir nosso pensamento, e tentar com ou sem sucesso, exercer algum domínio sobre nós, buscando sua própria satisfação. A principal característica de um desejo e sua importância para nós está na sua capacidade de “importunar” até serem atendidos.

John Piper surpreendeu o mundo cristão ao cunhar e defender a expressão “hedonismo cristão” em seu livro “Em Busca de Deus”. Ali ele apontou para o princípio de que Deus é mais glorificado quando é mais apreciado por suas criaturas racionais, propondo uma sutil reinterpretação da resposta à pergunta nº 1 do Breve Catecismo de Westminster quando afirma que “o fim principal do homem é glorificar a Deus e apreciá-lo para sempre”, modificando a resposta para ficar assim: “o fim principal do homem é glorificar a Deus apreciando-o para sempre”.[1] Igualando prazer e alegria, Piper intenciona despertar em nós o desejo por Deus.

Desejar Deus é um estado do coração que nos leva a contemplar o deus que está sempre agindo providencial e graciosamente a nosso favor. Isso significa três coisas: (1) ansiar que ele volte a sua face em nossa direção oferecendo-nos a sua intimidade (Nm 6.24-26). (2) Buscar constantemente por sinais da amizade de Deus conosco, da mesma forma como foi com Abraão e os discípulos de Cristo (2 Cr 20.7; Is 41.8-10; Tg 2.23; Jo 15.13-15; 1 Jo 1.3). (3) Navegar pela vida tendo a Palavra de Deus como nossa bússola que nos conduzirá ao que Ele tem preparado para nós no futuro.

Desejar Deus é um processo de disciplina de quatro passos que constam de deleite, anulação, negação e morte.
O deleite é uma questão de concentrar-se em Deus conscientes de que Ele promete e promove o nosso bem.
Anulação é uma questão de dar as costas para todos os aspectos da atitude ímpia de servirmos somente a nós mesmos que nos dominava no passado. 
A negação é uma questão de dizer não à carnalidade que inventa desculpas e subterfúgios para não servirmos a Deus de bom grado. 
A morte é uma questão de reconhecer com o intelecto e com a imaginação, que aos olhos de Deus fomos crucificados, mortos e sepultados com Cristo, ou seja, o que vivíamos antes de conhecermos a Cristo acabou, a nova vida substitui a antiga.

Conhecer a Deus deve ser algo contínuo e duradouro conforme aprendemos da oração de Colossenses 1.9,10, do uso dos particípios presentes no texto original de Colossenses 2.6,7 (edificados, confirmados e sempre cheios) e da exortação de 2 Pedro 3.18. (1) Esse conhecimento é cognitivo e relacional. (2) Esse conhecimento nos capacita a discernir a vontade de Deus. (3) esse é o conhecimento em que devemos progredir. E os meios adequados para fazê-lo acontecer são principalmente a oração, a meditação bíblica, a comunhão cristã e a ceia do Senhor. Desejar conhecer a Deus habitualmente é natural para o coração regenerado, sendo a raiz de todo progresso no conhecimento de Deus (Sl 73.25,26; 16.2,5; 42.1; 63.1,3; Lm 3.24).

2º) Santidade
Princípio nº 4: A santidade de vida leva a discernimento no coração.

          Em primeiro lugar, Romanos 12.1,2 nos mostra como a santidade se torna realidade na vida humana. A graça de Deus pode ser experimentada realmente como consequência do que Deus fez, faz e fará por nós, como fruto de suas “misericórdias” que estão no coração da justificação pela fé, algo que Paulo vinha expondo desde o capítulo 3 de Romanos.        Por isso, devemos oferecer como “sacrifício vivo” todo o nosso ser, tudo o que somos, a Deus; como um culto devidamente racional, compreensivo, inteligente.

          Em segundo lugar, Romanos 12.1,2 nos mostra como o discernimento da vontade de Deus se torna uma realidade nas vidas santas. Não devemos nos deixar moldar pelo mundo (acomodação - formatar), mas transformar nossas mentes pelo conhecimento progressivo e contínuo da vontade de Deus (transformação - metamorfose).

          O objetivo final e clímax desse processo é experimentar a boa, perfeita e agradável vontade Deus. Paulo não está falando de recebermos revelações diretas e sobrenaturais, mas de uma percepção situacional do que é o melhor e aplicável a cada uma e a qualquer situação em que precisarmos da orientação de Deus.

Conclusão
          Santidade de coração e vida; mentes em busca de renovação mais profunda e mais completa em Deus; disposição de refletir profundamente sobre qual direção seguir e o discernimento bem-sucedido da vontade de Deus são quatro aspectos que se complementam, onde a subtração de um ou dos três primeiros prejudicará o último.

          A perfeição cristã não tem a conotação de impecável, mas de amadurecido, o mais santo possível para pecadores vivendo antes de sua glorificação no dia final.

Motivos de oração
1.     Ore para Deus preparar (inclinar) o seu coração para temer o seu nome.

2.     Ore para Deus te fazer frutificar o fruto do Espírito a fim de que seja sua experiência habitual frutificar o caráter de Cristo nesse mundo.

3.     Ore para que o Espírito Santo transforme seus desejos em hábitos santos para a glória de Deus.

4.     Ore para que a relação entre o conhecimento de Deus e experimentar a vontade de Deus produza no seu coração as transformações desejadas por Deus para a sua vida e vossa deleitar-se em Deus todos os dias.


[1] A forma mais tradicional de declarar isso seria: “glorificar a Deus por gozá-lo para sempre”, e não: “e gozá-lo para sempre”.

Estudo 07 = Quatro Princípios Bíblicos Chave Para Aprendermos Andar na Verdade - Parte 1

Igreja Presbiteriana Jardim Goiás
Estudos de Quarta-Feira – 1º Semestre/2019
O DEUS QUE NOS GUIA E GUARDA - James I. Packer - Ed. Vida Nova

Rev. Hélio O. Silva - 20/03/2019


ESTUDO 07 = Quatro Princípios Bíblicos Chave Para Aprendermos Andar na Verdade - parte 1 (p. 86 a 100)

Introdução
Precisamos desenvolver como hábitos quatro princípios bíblicos chave para aprendermos a temer a Deus para andarmos na verdade (Sl 86.11). São eles: Saúde, hábitos, coração e santidade.
Nesse estudo trataremos dos dois primeiros.

1º) Saúde
Princípio nº 1: A saúde da alma é fruto da santidade do coração (Sl 86.11).
          Nós nos esforçamos para aprender o seu caminho para que possamos andar na sua verdade. A motivação do coração está no topo da escala de valores de Deus. No Salmo 86.11, “preparar o coração” é traduzido em outra versão por “una o meu coração ao temor do teu nome”. O coração é o centro (a casa de energia) dos nossos desejos, propósitos, planos e atitudes. Santidade não é uma questão externa, mas interna (Mc 7.1-15; Mt 23.23-28).

          Unir o coração ao temor a Deus é tomar consciência de que o coração humano caído precisa de integração, a formação de uma unidade interna que, ainda que tenhamos recebido um novo coração no novo nascimento, ainda não possuímos.

          Crer em Cristo destronou nossos desejos e compromissos antigos, mas não os destruiu. Nosso novo desejo, após a justificação dos pecados passou a centralizar-se em Cristo e na sua vontade - isso é santificação. Mas os nossos desejos bons recebem oposição de nossos desejos antigos centrados em nós mesmos.

O Salmo 86.11 indica que a cura para esse conflito é pedir a Deus que faça avançar o processo de nova integração, de modo que todas as nossas energias se unam no propósito de temer a Deus a fim de respondermos com reverência e obediência à sua Palavra. 

“Apreciar o amor de Deus, conforme se busca resistir aos impulsos do pecado que habita em nós, é a maneira de manter e aumentar nossa saúde espiritual” (p.89).

           Isso tem a ver com “andar no Espírito” (Gl 5.16-17). É preciso ficar bastante claro, que nosso progresso espiritual se dá a caminho sempre sofrendo oposição internamente da carne (nossa natureza humana pecaminosa). Internamente, temos sempre um componente de luta contra a apatia e as distrações. 

Os desejos da carne são opostos ao fruto do Espírito (Gl 5.19-23). Pecados “mais intensos” são mesclados com pecados “mais leves” em luta contra atitudes “mais robustas” e “mais comuns” de consagração espiritual. Ou melhor, pecados intocáveis e pecados reconhecidos fazem oposição aos novos hábitos morais (já assimilados ou ainda não) implantados pela presença do Espírito conhecidos como fruto do Espírito. Por isso devemos sempre examinar o coração e fazer um checkup de nossa alma: até que ponto meu coração e minha vida transbordam o fruto do Espírito? Como a pessoa que mais me conhece responderia a essa pergunta?

Caminhar é uma atividade que implica firme propósito, pois você continua, um passo após o outro, até chegar ao destino. A vida cristã também é assim.

2º) Hábitos
Princípio nº 2: A santidade é fruto dos hábitos do coração.
“Semeie uma ação, colha um hábito. Semeie hábitos, colha caráter. Semeie caráter, colha destino”. Esse provérbio demonstra que seus hábitos se tornam com o passar do tempo aquilo que você é. Fica evidente que certos hábitos são inerentes e instintivos de um coração regenerado. Por exemplo: Quem é cristão deseja agradar a Deus, expressar-lhe gratidão e amor.

Uma vez que na justificação, Deus nos adotou como seus filhos por meio de Cristo (Gl 4.4-7) aproximar-se de Deus e desejar imitá-lo passa a ser algo natural para nós. A santidade é fruto desse “instinto filial” que se expressa na formação de novos hábitos do coração e de vida que agradem a Deus, e que reproduza em nós o mesmo padrão moral do Pai e do Filho nos nossos corações.

Em Gálatas 5.22-23, esses hábitos são chamados de fruto do Espírito, que são nove facetas da imagem de Cristo como os atributos comunicáveis de Deus que Ele compartilha conosco. Aqui temos um fruto só, que se apresenta com nove facetas interligadas. 

Observe que (1) cada faceta é um modo constante de se comportar e que cada um desses padrões de comportamento envolve a disposição de nadar contra a corrente de impulsos impensados e pecaminosos produzidos por nosso próprio coração (as obras da carne - v. 19-21). (2) Cada faceta expressa convicções moldadas pelo conhecimento do amor e da vontade de Deus para nós. Não podem ser nem dons naturais nem sobrenaturais, mas o resultado do aprendizado do evangelho e da obediência a ele, quando conscientemente confiamos na sua condução para nossas vidas.

Amor - O hábito de buscar o melhor para o outro e fazê-lo importante para nós, quer reconheça ou não.
Alegria - O hábito disciplinado de refletir sobre as coisas que Deus fez por nós em sua bondade e contentar-se nelas.
Paz - a paz objetiva dada a nós pela cruz e a paz subjetiva de nunca nos esquecermos da cruz. Essa meditação não produz morbidez, mas produz paz verdadeira, porque vem de Deus.
Paciência - Um hábito que brota da paz interior, que confia que Deus está agindo, mesmo nos acontecimentos mais frustrantes da vida. Ela está enraizada na esperança (Rm 8.25). vence contratempos de curto prazo porque vê os benefícios de longo prazo, trazendo paz e serenidade em lugar de desespero e desesperança para o presente.
Benignidade - Um hábito que suaviza a atmosfera como fruto de receber e depois imitar a bondade de Deus para com os outros doando instintivamente (Ef 4.32).
Bondade - A bondade é a benignidade encharcada de sabedoria pois avalia a situação para agir com maior alcance.[1]
Fidelidade - É a capacidade de não desistir, exercendo confiabilidade constante para com os outros, mesmo quando não agem à altura conosco. Veja o exemplo do casamento de Oséias com uma prostituta que não lhe era fiel, mas ele não a abandonou e procurou cuidar dela até o fim.
Mansidão - Não é o oposto de força, mas é força sob controle, direcionada para amar e servir. O pastor manso “guia mansamente os que amamentam” (Is 40.11). Ser manso é confiar todos os nossos direitos nas mãos de Deus.
Domínio próprio - Uma forte compreensão de si mesmo e de sua identidade pessoal. Quem é assim e abraça a abnegação e o serviço ao próximo pode se tornar, nas mãos de Deus, uma força poderosa para o bem.

Esses hábitos ganham contornos excepcionais no trato com pessoas e situações difíceis e complicadas, porque colocam em perspectiva pública a direção de Deus na vida de quem os praticam, porque se mostram incomuns no comportamento de quem não conhece e não tem compromisso com Deus e sua Palavra.

Conclusão parcial
“Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4.19). Essa lista de hábitos compõe o tipo de santidade que constrói a verdadeira saúde espiritual de um cristão.

Motivos de oração
1.     Peça para Deus implantar a verdade no seu íntimo (Sl 51.10).
2.     Peça para Deus te dar disposição para iniciar a caminhada
3.     Peça para Deus fortalecer sua disposição em resistir às obras da carne pelo crescimento e amadurecimento do fruto do Espírito na sua vida interior e comportamento público.


[1] Outros autores afirmam o oposto: A bondade é a capacidade de repartir o que temos e a benignidade a capacidade de criar o bem onde ele não está presente, criando as condições para a prática da bondade.
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