O Bom pastor e seus comentários

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domingo, 27 de março de 2011

Exposição 04 = Gálatas 1.11-24 = A Origem do Evangelho de Paulo - (09/03/2011).


Contexto:
Um esboço simples de Gálatas:
Cap. 1 e 2 = A origem do Evangelho é divina e não humana, por isso não dependente deste.
Cap. 3 e 4 = A defesa do Evangelho é dada pelo Antigo Testamento como pela história, atestando sua veracidade.
Cap. 5 e 6 = A aplicação do Evangelho produz verdadeira liberdade, na qual devemos ficar firmes e nos alegrar.
Nos versos 11 e 12 Paulo repete sua afirmação resumida no verso 1 do capítulo 1 de que o evangelho que pregava não tinha origem humana e nem fora recebido por intermédio de homem algum, mas que viera diretamente de Deus por meio de uma revelação divina. Logo o Evangelho não é uma invenção humana e nem transmitido como se fosse uma tradição paternal ou eclesiástica; o Evangelho é recebido “mediante revelação de Jesus Cristo”. A origem e o conteúdo do Evangelho é Jesus Cristo.
Essa é a razão porque Paulo defendera inicialmente o seu apostolado. Uma vez que o evangelho que pregara vinha diretamente de Deus, o mesmo acontecia com o seu apostolado. Tanto a sua missão quanto a sua mensagem eram de Deus, porque vieram diretamente de Jesus Cristo. Seu chamado, sua missão e sua mensagem vinham de Deus para servir aos propósitos de Deus e não de homens!
O texto que estudamos agora é uma argumentação autobiográfica de Paulo a fim de confirmar as palavras dos versos 11 e 12.

Proposição:
A Origem do Evangelho pregado por Paulo é provada na sua própria história de vida. Paulo faz um retrospecto de sua história antes, durante e depois de sua conversão a Cristo:

I) O QUE ACONTECEU ANTES DE SUA CONVERSÃO (V.13,14):

Note que nos versos 13 e 14 Paulo se refere à sua experiência anterior à sua conversão dentro do judaísmo. Nos dois casos Paulo descreve a si mesmo como um fanático, usando as palavras “sobremaneira” e “extremamente zeloso”. Isso era algo do que se “avantajava”. Tudo isso era aplicado ao seu procedimento, à sua conduta ética (moral) como judeu.
Para um judeu como Paulo, “ser judeu não significava apenas que um homem tinha uma religião peculiar para si mesmo, mas também que vivia uma vida que o assinalava como diferente de todos os outros homens”.

a)Como judeu perseguia a igreja.
Primeiro fala de si mesmo como perseguidor da igreja. Essa perseguição era “sobremaneira”, ou seja, com violência. Ele literalmente caçava os cristãos tratando-os violentamente.
Ele nos diz em Atos que ia de casa em casa e prendia cristãos em Jerusalém, levando-os para a prisão (At 8.3). Aprovava sua condenação à morte; castigava-os obrigando-os a blasfemar o nome de Cristo de forma enfurecida perseguindo-os até mesmo fora de Jerusalém (At 26.10,11).
Ele ainda nos diz que devastava a igreja, usando a figura de soldados atacando uma cidade para destruí-la totalmente. Ele havia declarado guerra à igreja de Cristo. Ele foi para Damasco “respirando ameaças e morte” contra os discípulos (At 9.1).

b)Era extremamente zeloso das tradições do judaísmo.
Na segunda afirmação de Paulo ele aponta o motivo de tal violência. Era seu extremado zelo religioso para com a tradição judaica, não o Antigo Testamento, mas a sua interpretação oral feita pelo judaísmo no decorrer dos séculos. É como se dissesse: “_Ninguém da minha idade era tão religioso quanto eu”. Em Atos 26.5 nos informa que fora criado fariseu, a seita mais severa do judaísmo. Era como se fosse um muçulmano xiita dentro do judaísmo.

II) O QUE ACONTECEU NA SUA CONVERSÃO (V.15, 16a):

Todos nós sabemos que a conversão de um religioso fanático é a mais difícil de todas, porque não ouve a ninguém. Paulo testemunha que foi exatamente isso que aconteceu por uma intervenção divina direta em sua vida no episódio da estrada de Damasco.

a) Deus separou a Paulo para o evangelho antes dele nascer.
Paulo faz um contraste entre o que ele era e fazia dentro do judaísmo e o que Deus é e fez por ele através do evangelho de Jesus Cristo. Ele muda o discurso de “eu” para “Deus”.
Paulo usa 3 palavras chaves: Separar – Chamar – Revelar. A iniciativa de Deus é enfatizada em cada uma delas.
Primeiro: Deus o separou antes de ele nascer, fazendo uma referência à eleição (Ef 1.4 = antes da fundação do mundo). Como Jacó e Jeremias, escolhidos por Deus antes de nascerem (Rm 9.10-13; Jr 1.5).

b) Deus o chamou pela sua graça.
Segundo: Deus o chamou pela sua graça. O amor imerecido de Deus o alcançou quando ele menos esperava, engajado, como estava, perseguindo o próprio Cristo.
Ele não pedira e muito menos buscara a graça, ela simplesmente o atingiu, dobrando-o perante o chamado eficaz do evangelho de Cristo. Então foi convertido a Cristo.
Até à sua conversão Paulo conhecia vários detalhes da vida e da história de Jesus, mas somente depois da estrada de Damasco ele o conheceu como o Rei ressurreto dentre os mortos, capaz de executar a salvação que prometera no evangelho. O evangelho não é apenas a história de Cristo, mas a soma de sua história com o milagre sobrenatural do sacrifício da cruz e da ressurreição eterna.

c) Deus revelou Cristo a Paulo para que ele o pregasse aos gentios.
Terceiro: Deus revelou Cristo em Paulo cumprindo o propósito de sua vontade. Paulo perseguia a Cristo porque cria ser ele um impostor, mas Deus o conduziu por um caminho em que lhe foi revelado que de fato Cristo era o messias prometido no Antigo Testamento. Ele conhecia a história da morte e ressurreição de Cristo, mas agora, pela graça de Deus, entendia o seu significado eterno.
O objetivo da vocação de Paulo ficou explícito a ele desde o começo, ele deveria pregar o evangelho de Cristo aos gentios (At 9.15). Ele deveria pregar o evangelho de Cristo e não a lei de Moisés.
A revelação que Paulo recebeu de Cristo foi tanto externa (At 9.3; I Co 9.1; 15.8,9) como interna (Gl 1.14). Cristo foi revelado em Paulo. Note que a forma íntima da revelação não alterou a essência da mesma, porque Paulo deverá pregar o mesmo evangelho que os outros apóstolos já pregavam, e não o seu evangelho particular em competição com o que os demais pregavam.
A nossa grande dificuldade com os apóstolos modernos é que reivindicam a mesma experiência de Paulo, mas a grande diferença é que o seu apostolado lhes é conferido por organismos internacionais auto-declarados com autoridade para fazê-lo e sua mensagem claramente destoa de toda a mensagem bíblica, pois tenta suplementá-la com novas revelações, o que Paulo vai demonstrar não ser o seu caso nos versos seguintes e também no início do capítulo 2.

III) O QUE ACONTECEU DEPOIS DA SUA CONVERSÃO (V.16b-24):

A descrição das ações de Paulo a seguir visa demonstrar novamente que sua vocação e sua mensagem não vierem e nem foram intermediadas por homem algum:


a)Não consultou a nenhum homem; nem procurou os apóstolos em Jerusalém (v.16b,17).
Tudo que será escrito a seguir é para comprovar essas duas afirmações. Segundo Stott, são três álibis. Um álibi é uma justificativa ou escusa aceitável.

1.Buscou o isolamento na Arábia e depois retornou a Damasco (v.17).
Atos 9.20 diz que ele pregou logo de início em damasco, mas teve de fugir devido a uma perseguição contra ele. É possível que tenha ido então para a Arábia em busca de quietude e solidão para meditação nas escrituras, na sua experiência com Cristo e para receber revelações que completaram seu entendimento do evangelho. Lá ele ficou por 3 anos!

2.Conheceu os apóstolos somente 3 anos depois em Jerusalém (v.18-20).
Essa visita possivelmente é a mencionada em Atos 9.26. Paulo não dá importância a essa visita como os judaizantes que o acusavam davam. Avistou-se somente com Pedro e Tiago. O verbo avistar-se era utilizado para visitas turísticas e com o objetivo de viajar para conhecer alguém.
Nada no testemunho de Paulo indica uma visita para aprendizado ou porque tenha sido ordenado ir até lá. Ele foi espontaneamente. Paulo passou 15 dias em Jerusalém e além de Pedro conheceu apenas a Tiago, o irmão do Senhor e que Paulo conta entre os demais apóstolos. Segundo Atos 9.28,29, essas duas semanas foram ocupadas em pregações mais que em encontros.
Demorou 3 anos para ir a Jerusalém, ficou apenas duas semanas e conheceu apenas dois apóstolos. Muito pouco para se dizer que tenha recebido ou aprendido todo o seu ensino do evangelho dessa forma.

3.Passou um tempo na Síria e Cilícia antes de iniciar seu ministério público (v.21-22).
Essa visita ao extremos norte do Império é a de Atos 9.30, quando correndo perigo em Jerusalém foi enviado para Cesréia e depois para Tarso, que fica na Cilícia, passando possivelmente por Antioquia e Damasco (regiões da Síria).

b)A igreja foi informada de sua conversão e glorificava a Deus por isso (v.23,24).
O resultado dessas peregrinações iniciais de Paulo é que era pouco conhecido nas igrejas. As igrejas ouviram falar de sua conversão e glorificavam a Deus por ela, mas nenhum contato tinham tido com ele até a sua experiência pastoral em Antioquia e o início de suas viagens missionárias.
Seu contato com a igreja de Jerusalém e os apóstolos só se dará 14 anos após esses eventos! (Gl 2.1). Esses 3 álibis de Paulo atestam a independência de seu evangelho do colégio apostólico no que diz respeito á sua origem: Veio diretamente de Deus e não por meio de homem algum.

Aplicações:

Qual é o valor de nossa experiência e comportamento no testemunho, na defesa e na pregação do evangelho?
Paulo dá seu testemunho pessoal que foi muito contestado pelos judaizantes, assim como continua sendo contestado por muitos autores de nosso tempo. Alguns simplesmente recusam aceitar seu testemunho e outros dizem que seu testemunho é uma deturpação do evangelho de Cristo.
Nosso testemunho pessoal só é útil ao evangelho se for coerente com a sua mensagem, como Paulo procurou demonstrar. Mesmo assim somente a ação divina pode operar a transformação de vida proposta no evangelho de Cristo.

Conclusão:
Então somos colocados diante de um dilema: Rejeitar o testemunho e o evangelho que Paulo prega ou receber como verdade o evangelho e seu testemunho fortemente embasado em fatos históricos reais? Se Paulo está certo e recebeu seu evangelho verdadeiramente de Deus, então rejeitá-lo é rejeitar a Deus.
Do mesmo modo se os apóstolos modernos puderem demonstrar historicamente sua experiência com Cristo e sua coerência com o evangelho, seria errado rejeitá-los, mas se não puderem estabelecer uma linha de coerência com o evangelho, então recebê-los é abraçar outro evangelho e não conhecer a Cristo verdadeiramente.

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