O Bom pastor e seus comentários

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sexta-feira, 11 de março de 2011

Exposição 01 = A Mensagem de Gálatas


Estudo Bíblico: A Mensagem de Gálatas
Contexto.
Livro: STOTT, John R. W. A Mensagem de Gálatas: somente um caminho. São Paulo: ABU Editora, 2007.
Preparado por: Rev. Dyeenmes Procópio de Carvalho.

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INTRODUÇÃO
Em Gálatas, entre os vários temas que Paulo aborda, dois, em especial, ele retoma ao longo da carta: seu apostolado e seu evangelho. Mas, a fim de entender a mensagem de Gálatas, precisamos primeiramente estudar alguns tópicos relacionados ao conteúdo da carta, como por exemplo, a autoria da carta, o que levou Paulo a escrever a epístola aos gálatas, a presença de judeus na Galácia e sua influência no seio da igreja e etc. Todos estes tópicos nos ajudarão a enxergar melhor o conteúdo da carta.

AUTORIA
De todos os assuntos relacionados à epístola aos Galátas, a autoria é a matéria de menor divergência. Paulo se identifica como o autor no começo da sua saudação “Pau=loj a)po/stoloj - Paulo apóstolo“ (Gl. 1.1). Admite-se, de maneira quase universal, que Paulo, o apóstolo cujo ministério é pintado em Atos dos Apóstolos, é o autor de Gálatas. Muitos indícios são apontados como comprovativos desse fato: a natureza do argumento teológico desta epístola, o uso distintivo da Escritura como suporte para o argumento, seus fervorosos apelos, o estilo de escrita (LONGENECKER, 1998). A epístola aos Gálatas traz profundas marcas do autor e a totalidade do seu conteúdo se encaixa no que se espera do Apóstolo Paulo (GUNTHRIE, 2006, p. 13).
Por fim, é interessante ressaltar a opinião de Georg Kümmel de “que Gálatas é uma epístola genuína e autêntica é inquestionável” (CARSON; MOO; MORRIS, 1998, p. 320) e F. C. Baur, o qual diz que “elas [as quatro grande cartas de Paulo – I e II Coríntios, Gálatas e Romanos] tão incontestavelmente a caráter da originalidade paulina, que não há base concebível para a asserção de dúvidas críticas no caso delas” (LONGENECKER, 1998).

PLANTAÇÃO DAS IGREJAS DA GALÁCIA EM ATOS
Quando Paulo usa a expressão “eklesi/aij th=j Galati/aj – igrejas da Galácia” compreendemos que se refere às igrejas das cidades de Antioquia da Psídia (At. 13.14, II Tm. 3.11), Listra (At. 14.6, II Tm. 3.11), Derbe (At. 14.6) e Icônio (At. 14.1-5, II Tm. 3.11). Esse costume de classificar as igrejas de acordo com as províncias é comum a Paulo: “Igrejas da Ásia” (I Co. 16.19), “Igrejas da Macedônia” (II Co. 8.1), ou “Acaia” (II Co. 9.2). (HANSEN, in HAWTHORNE; MATIN; REID; 2008, p. 583). Através das narrativas de Lucas (At. 13, 14) somos informados de como foi o processo de plantação dessas igrejas.
Quanto às dificuldades, a plantação foi árdua tal que João Marcos desistiu da viagem e voltou para Jerusalém (At. 13.13-15). Alguns estudiosos acreditam que essa desistência se deve ao relevo bastante acidentado, e conseqüentemente, ao difícil acesso das cidades da região. Além disso, houve perseguição a Paulo e Barnabé em Antioquia da Psídia (At. 13.45) de onde foi expulso por influência dos judeus sobre mulheres piedosas de alta posição (At. 13.50). O mesmo aconteceu em Listra (At. 14.19) novamente por iniciativa dos judeus que levaram a multidão a apedrejar Paulo e, arrastando-o, levá-lo para fora da cidade.
Outra dificuldade narrada na carta era uma doença física repugnante. Contudo, quando anunciou o evangelho ali, os convertidos o receberam como se ele fosse um anjo de Deus. Paulo diz que, se possível, eles lhe teriam dado os próprios olhos (Gl. 4.12-15). (HANSEN, in HAWTHORNE; MATIN; REID; 2008, p. 583).
Quanto à composição dessas igrejas temos informações suficientes. Diante da pregação de Paulo, judeus em Icônio (At. 14.1) foram convertidos, bem como gentios em Antioquia da Psídia (At. 13.48), Icônio (At. 14.1). Isto é, as igrejas da Galácia eram compostas tanto de judeus como de gentios. Além disso, segundo At. 14.23, em todas as igrejas da região, Paulo promoveu a eleição de presbíteros para pastorearem as igrejas, uma vez que ele estava de retorno para Antioquia da Síria (At. 14.26).

OCASIÃO
A fim de uma correta compreensão da mensagem de Paulo na carta aos Gálatas, é necessário entender a situação que levou o apóstolo a escrever de forma tão pessoal e fervorosa aos irmãos gálatas. Antes disso, porém, é necessário lembrar que é possível saber os motivos de Paulo e os ensinos errados apenas pelo que Paulo argumenta ao longo da carta. Este tipo de leitura é chamada, por alguns teólogos, de “leitura espelhada” (LONGENECKER, 1998), uma vez que temos na carta a exposição de Paulo refutando os ensinos e não a exposição sistemática dos mesmos.
O primeiro motivo é a existência de um grupo de mestres heréticos (cf. 1.7; 5.10, 12; 6.12, 13) que ensinavam que a circuncisão era necessária para a salvação (5.2; 6.12 ss.) e demandavam dos cristãos a observância de algumas das regulamentações da lei mosaica, como por exemplo, a guarda de dias, meses e anos (4.10; cf. 4.21) e, além disso, afirmavam que sua pregação era fiel ao evangelho (1.7); contudo, o próprio apóstolo Paulo afirma que eles agiam por interesses pessoais (cf. 4.17; 6.13), entre estes, a ambição pessoal e ofensa à cruz de Cristo (RIDDERBOS, 1984, p. 15).
Ao juntar tudo isso, outro lado do chamado “outro evangelho” era a afirmação da necessidade da submissão às exigências da lei para se ter um relacionamento de aliança com Deus (CARSON; MOO; MORRIS, 1998, p. 327) e que somente essa submissão às exigência da lei garantiria a herança do judaísmo (BROWN, 2004, p. 624). Donald Gunthrie (2006, p. 22) crê que é razoável pensar que estes heréticos eram judeus, em virtude da ênfase que davam à guarda da lei mosaica (1.7, 9; 2.4, 11, 12; 3.1, 10; 4.17; 5.2, 4, 10, 12; 6.12, 17) pelo fato de quererem combinar o evangelho de Cristo com as observâncias das cerimônias judaicas (RIDDERBOS, 1984, p. 16), isto é, viam o cristianismo como um judaísmo modificado (CARSON; MOO; MORRIS, p. 327). Alguns, entre estes Ridderbos (1984, p. 16), até deduzem de Gl. 5.10 que era possível que esse grupo tivesse um líder forte e influente. Raymond Brown (2004, p. 623), da mesma forma que Merril C. Tenney (2008, p. 279) e Longenecker (1998), acreditam que esse grupo era originário da cidade de Jerusalém.
Em acréscimo, outra parte do ensino do grupo opositor de Paulo pode ter sido o ser diretamente relacionamento deles com Abraão e a aliança abraâmica, e assim sendo, ser legitimamente filhos dele e o experimentar completamente das bênçãos da aliança de Deus com Abraão (e, por extensão, com o povo de Israel). A comprovação desse fato se dá na forma como Paulo aborda Abraão e a aliança abraâmica ao longo da carta. Por exemplo, em Gl. 3.6-9, Paulo aborda a justificação de Abraão pela fé em Cristo e no v. 7 afirma – ginw/skete a)/ra o(/ti oi( e)k pi/stewj, ou)=toi ui(oi/ ei)sin )Abraa/m, sabeis, portanto, que os da fé, estes são filhos de Abraão” para combater a compreensão de que só os judeus são filhos legítimos de Abraão. Além disso, Paulo em Gl. 3.15-18 diz que o foco das promessas a Abraão era a promessa da semente, que é Cristo. Ele também usa o tratamento alegórico de Sara e Hagar e seus filhos (4.21-31), bem como a expressão (Israe/l tou= qeou=, Israel de Deus, para os convertidos da Galácia em Gl. 6.16 para mostrar que os convertidos a Cristo, pela fé, são sim, herdeiros das promessas feitas a Abraão (LONGENECKER, 1998).
Outra séria faceta do ensino do grupo judaizante era a ênfase sobre a lei judaica como o caminho divinamente apontado para dar xeque à libertinagem dentro da igreja. Isso é possível em virtude da ênfase de Paulo sobre a função pedagógica da lei chegando a um fim com Cristo (3.19 – 4.7), e sobre o viver pela direção do Espírito (como oposto ao viver dirigido pela lei) como o antídoto para a libertinagem (5.13-26) (LONGENECKER, 1998).
O segundo motivo é que esse grupo herético fez oposição a Paulo tentando minar sua autoridade – veja Gl. 5.11 (CARSON; MOO; MORRIS, 1998, p. 328). Em resposta, Paulo afirma que seu conhecimento do evangelho não era dependente de outros apóstolos, mas tinha adquirido sua comissão e perspectiva (Gl. 1.12, 16 ss.) diretamente do Senhor e que houve total concordância entre eles e os apóstolos em relação aos princípios da missão aos pagãos (cf. 2.1-10) para que o grupo opositor não lograsse êxito sobre ele (RIDDERBOS, 1984, p. 16). F.F. Bruce (ver data, p. 36) resume assim a argumentação dos opositores de Paulo para desacreditá-lo:
Os líderes de Jerusalém são as únicas pessoas com autoridade para dizer o que o verdadeiro evangelho é, e esta autoridade eles receberam de Cristo. Paulo não tem comparável autoridade: qualquer comissão que ele tem foi derivada por ele dos líderes de Jerusalém, e se ele [Paulo] difere deles quanto ao conteúdo e implicações do evangelho, eles está agindo e ensinando completamente arbitrariamente. [...] Os líderes de Jerusalém praticaram a circuncisão e observaram a lei e os costumes, mas Paulo saiu para sua própria linha, omitindo a circuncisão e outras práticas antigas da mensagem que ele pregou e, desta maneira ele traiu a sua herança ancestral [...] (Tradução nossa).
Além disso, parece que Paulo não chegou a conhecer seus oponentes, tanto pessoalmente quanto pelo nome, pois ele se refere a eles como “algumas pessoas”, tine/j, e “alguém”, tij, em Gl. 1.7-9 (LONGENECKER, 1998).
Portanto, duas situações motivaram Paulo a escrever a carta aos Gálatas: 1)- entrada de um grupo herético judaizante nas igrejas da Galácia; 2)- acusações contra Paulo concernentes ao seu apostolado e veracidade da sua mensagem em relação aos apóstolos de Jerusalém.

JUDEUS NA GALÁCIA
A presença judaica na Ásia Menor, região na qual se localizava a Galácia, era marcante e significativa. As sinagogas judaicas encontradas nessa região estavam bem construídas e localizas. As migrações judaicas para essa regiões foram incentivadas por dois fatores: primeiro, a ocupação romana da Palestina a partir de 66 d.C. que culminou na destruição de Jerusalém; segundo, imensa facilidade de locomoção proporcionada pelas estradas e sistema de navegação romana. Alguns chegam ao dado de que, no censo promovido por Cláudio (10 a.C. – 54 d.C.), sete milhões de judeus recenseados residiam na Ásia Menor (ARENS, 1998, pp. 158, 159). Merril C. Tenney (2008, pp. 124, 125) afirma que dentre os judeus na diáspora existiam dois tipos de judeus: primeiro, o hebraísta, isto é, que mantinham a fé religiosa do judaísmo, os costumes judaicos e a língua hebraica ou aramaica e, segundo, o helênicos, isto é, aquele que simplesmente não participava do culto público e coletivo das divindades pagãs.
A política romana em relação aos judeus foi um fator que, além de contribuir para a migração judaica, possibilitou a permanência deles na Ásia Menor. É possível resumir liberdade judaica concedida pelo Império Romano nas seguintes disposições (ARENS, 1998, p. 161): 1)- culto ao Deus do judaísmo (culto monoteísta) e a dispensa da participação em cerimônias como o culto ao imperador (Ant.; XVI, 27); 2)- o direito de ter sinagogas para suas reuniões (Ant.; XIV, 226-235); 3)- o direito de guardar o sábado e as festas judaicas (Ant.; XIV, 226-245; XVI, 163-168); 4)- o direito de fazer a coleta do shekel para o templo (Ant.; XVI, 163ss.); 5)- dispensa do serviço militar (Ant.; XIV, 228-234).
As comunidades judaicas, em virtude de seus costumes, se diferenciavam do restante da população. Era comum a construção de um “cidade” judaica (politeuma) dentro da cidade. A sinagoga era o centro da comunidade, em torno da qual giravam toda a vida dos judeus. O elo entre os judeus era que todos tinham a mesma regra de vida: a Torá. Além disso, eles tinham associações de profissionais compostas por judeus e simpatizantes (ARENS, 1998, p. 164). Apesar disso, muitos judeus conseguiram adquirir a cidadania romana, não sendo necessário o abandono do judaísmo e suas práticas (ARENS, 1998, p. 166).
Visto que os judeus, em algumas cidades, principalmente em Antioquia (ARENS, 1998, p. 166), tinham condições de terem a cidadania, sendo este um requisito para ser proprietário ou mesmo arrendatário de terras (ARENS, 1998, p. 182), é possível pensar que alguns judeus fossem camponeses. Isso, de certa forma, explicaria a penetração de ensinos judaizantes entre membros das igrejas da Galácia (Gl. 1.6-9).
Por último, a fé judaica exercia grande atração entre alguns da população da Ásia Menor. Eduardo Arens (1998, p. 170), erudito alemão, aponta alguns elementos da crença hebraica que impulsionavam a existência de prosélitos na Ásia Menor: 1)- a fé num Deus único, criador do céu e da terra que contrastava com o a crença gentílica politeísta que prescrevia muitos ritos e cultos; 2)- a fé num só Deus ao invés de um panteão de deuses, em eterno conflito entre si; 3)- o caráter divino, sólido e histórico da revelação judaica respaldada nas Escrituras do Antigo Testamento. Esses elementos do judaísmo, em contraste com a fé pagã, levavam muitos gentios a aderirem o modo de vida e fé judaicos.

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BIBLIOGRAFIA
ARENS, Eduardo. Ásia Menor nos tempos de Paulo, Lucas e João: aspectos sociais e econômicos para compreensão do Novo Testamento. São Paulo: Ed. Paulus, 1998.
BROWN, Raymond. Introdução ao Novo Testamento. 1ª edição. São Paulo: Ed. Paulinas, 2004.
CARSON, D. A.; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. 1ª edição. São Paulo: Ed. Vida Nova.
GUNTHRIE, Donald. Gálatas: introdução e Comentário. 1ª edição. São Paulo: Ed. Vida Nova, 2006.
LONGENECKER, Richard N. Word Biblical Commentary vol. 41: Galatians. Dallas: Word Books Publisher, 1998.
RIDDERBOS, Herman N. New International Commentary on the New Testament: The Epistle of Paul to the Church of Galatia. Michigan: WM. B. Eerdmans Publishing Co., 1984.
TENNEY, Merril C. O Novo Testamento: sua origem e análise. São Paulo: Shedd Publicações, 2008.
HAWTHORNE, Gerald F. (org.); MARTIN, Ralph P. (org.); REID, Daniel G. (org.). Dicionário de Paulo e suas cartas. 1ª edição. São Paulo: Vida Nova, Paulus, Loyola. 2008.

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