O Bom pastor e seus comentários

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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Tito 1.3 = A Necessidade de Ordem na Igreja Local

                                                             Paulo, Timóteo e Tito

Texto: Tito 1.3.
Tema: A Necessidade de Ordem na Igreja Local.

Introdução:
         Tenho aprendido ser importante falar sobre o governo da igreja e seus ofícios fora do período de eleições eclesiásticas por pelo menos três razões:
1. A abordagem se concentra, via de regra, apenas nas características requeridas para se exercer o ofício.
2. Não há aprofundamento no tema do governo da igreja e sua relação com a saúde da igreja e sua ordem.
3. Há sempre o risco da manipulação ou do favorecimento que geram comentários equivocados nos corredores das igrejas.
      E creio, também, ser uma urgente necessidade trazermos esse assunto para os púlpitos das igrejas noutras ocasiões para ser ensinado com mais profundidade a fim de instruirmos os presbiterianos sobre o tema e as razões bíblico-teológicas e pastorais ligadas a ele, por crermos ser essa a forma bíblica do governo da igreja.
         Há um abismo de desinformação e má formação por parte da liderança da igreja que podemos colocar em risco a integridade da própria proclamação do evangelho.
         A integridade do Evangelho é a razão de Paulo ensinar tanto a Timóteo como a Tito sobre o governo da igreja e as exigências divinas para o episcopado.

Contexto:
         Paulo deixou Tito em Creta com o propósito de organizar a igreja da ilha. Paulo estava a caminho de Nicópolis, na costa da Grécia com o desejo de passar o inverno ali.
         A razão disso era que assim como advertiu a Timóteo contra os falsos mestres judaizantes na primeira epístola que lhe escreveu (1 Tm 3), também o faz a Tito (Tt 1.10-16).
Paulo mostra que a mesma graça que confere a salvação, conduz à vida piedosa e sustenta a nossa esperança na volta de Cristo. Quem é regenerado pelo Espírito Santo vive uma vida de santidade já neste mundo; “os que têm crido em Deus sejam solícitos na prática de boas obras” (Tt 3.5-8).
O papel dos presbíteros é ensinar pela vida e pela palavra como se deve viver a vida piedosa na igreja ( o mesmo se aplica aos diáconos).
Paulo mostra na epístola a Tito que há duas razões fundamentais para a existência de presbíteros na Igreja: A primeira é a necessidade de organização (v.5). A segunda é a presença na igreja de insubordinados, falsos mestres gananciosos e impuros e descrentes (v. 10-16).

Proposição:
         Paulo instrui a Tito quanto à necessidade de ordem nas igrejas de Creta. Há três ensinos básicos que precisamos observar quando à ordem no governo das igrejas locais:

I) Por em ordem as coisas restantes.

®   Ordem é organização.
®   Organização é tanto administração coerente com as escrituras como pastoreio sadio na fé.

II. Constituir presbíteros em cada cidade.

Presbítero = ancião. Bispo (epíscopo – v.7) = superintendente, administrador.
No Judaísmo eram líderes mais idosos e experientes dentre o povo.
Na igreja = designação da liderança pastoral e administrativa da igreja.
            Deve ser observado que em cada igreja o governo sera exercido por presbíteros, não um presbítero auxiliado por diáconos, mas o governo deverá ser exercido por um grupo de presbíteros, pois o governo da igreja deve ser plural.
A Igreja Presbiteriana faz uma distinção entre presbíteros docentes e presbíteros regentes, não como subdivisões do ofício de presbíteros, mas como dois ofícios diferentes.
Veja como o assunto é abordado na Constituição da IPB:
Art.25 - A Igreja exerce as suas funções na esfera da
doutrina, governo e beneficência, mediante oficiais que
se classificam em:
a) ministros do Evangelho ou presbíteros docentes;
b) presbíteros regentes;
                                      c) diáconos.[1]

A base bíblica para isso é encontrada em 1 Timóteo 5.17 onde é dito do presbítero que administra bem e do que se afadiga na palavra.
Calvino encontra base para essa distinção no exercício dos dons espirituais em Efésios 4.11 e Romanos 12.8ss. Ali ele define como “ofício” o exercício dos dons no ministério ordinário da igreja.[2]
Essa distinção, no entanto, não deve ser vista de modo rígido, mas fluida. Porque uma exigência para o presbiterato é a capacidade de ensinar, que deve estar presente tanto num quanto noutro. A docência também participa do governo, pois o conceito de autoridade bíblica é diferente da secular.
No conselho, não pode haver preeminência nem hegemonia de um ofício sobre o outro, mas ambos são iguais. Calvino alerta que o conceito de “hierarquia” não cabe nas definições dos ofícios da igreja.[3], porque o governo da igreja é exercido por servos iguais vocacionados pelo próprio Deus.

III. Conforme o prescrito.

A prescrição é o que consta em Atos 14.23, repetindo Atos 13.1-3.
®   Por meio de eleição.
Tantos os presbíteros quanto os pastores devem ser eleitos pela igreja; ainda que nossa CI/IPB[4] faculte aos Conselhos a prerrogativa de convidá-los anualmente.

®   Com oração e jejuns.
Calvino diz nas Institutas que a igreja antiga levava esse assunto da eleição tão a sério que oravam e jejuavam por isso.[5] Por isso é ao mesmo tempo triste e vergonhoso ver a presença de menos de 50% dos membros da igreja presentes nas Assembleias convocadas para as eleições dos oficiais da igreja!

®   Encomendando-os ao Senhor.
Isso era feito com imposição de mãos dos demais presbíteros (Atos 13.3). Um rito simples e feito com muita seriedade, pois não devia haver imposição de mãos realizadas com precipitação (1 Tm 5).

O ensino de Calvino quanto a isso: (Institutas, Livro IV, capítulo III ).
As quatro questões ou “elementos” apresentados a seguir, definem o modo prático de reconhecer e praticar a vocação divina no governo da igreja.
1. Como devem ser os ministros.
2. Como devem ser escolhidos.
3. Quem deve escolhê-los.
4. Que rito ou cerimônias há de iniciá-los.
         A explicação de Calvino de cada uma delas é ao mesmo tempo bíblica, prática, pastoral, convincente e apologética, visto que não só estabelece uma ordem bíblica para o governo da igreja como previne e denuncia os desvios da Palavra de Deus perpetrados pela ambição, avareza e cobiça incentivando o temor a Deus e a edificação da igreja (Inst. IV.III,11).[6]
1. Como devem ser os ministros? Partindo de 1 Timóteo 3.1 e Tito 1.7 resume as exigências bíblicas a que sejam “homens de boa doutrina e vida santa”, nunca ineptos ou incapazes.
2. Como devem ser escolhidos? A escolha dos ministros (e dos presbíteros) acontecia com a prática de jejuns e orações (At 13.1-3; At 14.23). A razão disso era o fato de a escolha dos ministros ser “o mais sério dos assuntos” da igreja.

3. Quem deve escolhê-los? Os membros da igreja por meio de eleição. Calvino afirma: “Que a vocação legítima de um bispo exija ser eleito pelos homens ninguém de bom senso contestará, posto que haja numerosos testemunhos da Escritura” (Inst. IV.III,14),[7] citando para esse fim Atos 1.23; Tito 1.5 e Atos 14.23. A forma de constituir presbíteros nas igrejas é por meio do voto; “a multidão toda, erguendo as mãos, indicou a quem queria” (Inst. IV.III,15).[8]

4. Que rito ou cerimônias há de iniciá-los? Calvino diz simplesmente que era por meio da “imposição de mãos”, realizada exclusivamente pelos pastores e nas Ordenanças Eclesiásticas acrescenta “providenciando para que ela ocorra sem superstição e sem afronta”.[9]

Aplicações:
          Muitos erros nos conselhos tem sua origem na superficialidade de nosso conhecimento da forma de governo bíblica, permitindo influências externas ao conciliarismo.


Frase Final: Tomemos a resolução de tratar essa questão mais seriedade daqui para a frente para a glória de Deus e o bem da igreja!



[1] Manual Presbiteriano. CI/IPB Art 25, p.18.
[2] Calvino. Institutas IV.III.4-7.
[3] Calvino. Institutas IV.IV.4.
[4] CI/IPB Art. 30 a 49 p.19-24.
[5] Calvino. Institutas Livro IV.III,12.
[6] Institutas  IV.III,11, 2009, p.509. UNESP.
[7] Institutas IV.III,14, 2009, p.510.
[8] Institutas IV.III,15, 2009, p. 511.
[9] CALVINO, João. Ordenanças Eclesiásticas Esboço 1541. In:  FARIA, Eduardo Galasso. João Calvino – Textos Escolhidos,  São Paulo: Ed. Pendão Real;  2008, p. 186.

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