O Bom pastor e seus comentários

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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Lucas 8.19-21 = Quem é a Minha Família?

José com Jesus na Carpintaria

Texto: Lucas 8.19-21.
Tema: Quem é a Minha Família?


Introdução:
Nas minhas férias eu pude ler o livro apócrifo "Proto-Evangelho de Tiago" ou como é mais conhecido "O Evangelho da Natividade de Maria". As datas propostas para a sua escrita vão de 60 dC até o final do séc. II. Gozou de grande estima entre os primeiros cristãos, incluindo Clemente de Alexandria, Orígenes, Justino e Epifânio em função de sua contribuição para a formação do culto a Maria e a liturgia da Igreja.

A obra narra o nascimento de Maria; os nomes de seus pais são Joaquim (I,1) e Ana (II,1); esta é estéril (II,1); Maria é consagrada ao Templo aos 3 anos de idade (VII,2)sendo criada pelos sacerdotes até completar 12 anos (VIII,2); José é então escolhido para ser o esposo de Maria (IX,1), embora fosse velho e tivesse filhos, por ser viúvo (IX,2); a anunciação feita por Gabriel é semelhante ao que lemos em Mateus e Lucas, acrescentando mais detalhes (XI); o mesmo se pode dizer de sua visita a Isabel (XII); em virtude de sua gravidez inesperada, é interpelada, juntamente com José, pelos representantes do Templo, dentre eles um certo sacerdote Anás, escriba do templo, e forçados a beber as águas amargas prescritas pelo Antigo Testamento, quando são inocentados e libertos (XV a XVI). Indo para Belém, em obediência ao decreto imperial, Maria dá à luz ao seu Filho em uma caverna e a parteira que acompanhou o parto (XVIII,1) ficou espantada com o fato de Maria permanecer virgem mesmo após o mesmo (XIX e XX). Narra-se a seguir a visita dos Magos e a morte das crianças a mando de Herodes. Zacarias, pai de João Batista, é assassinado no Templo, acusado de ter escondido seu filho (XXIII e XIV).

O objetivo da obra é justificar o conceito da perpétua virgindade de Maria e negar ou obscurecer a perfeita humanidade de Cristo. Há várias incoerências das práticas narradas com os seus respectivos mandamentos no Antigo Testamento e também no Novo. A narrativa destoa radicalmente da narrativa natural do Novo Testamento ao falar da riqueza dos pais de Maria e seu trânsito no templo.

A mistura inexplicável da história de Maria com a de Samuel e sua criação no templo, o que não era permitido para mulheres, não há precedentes na literatura que já li a respeito dos costumes da época de Jesus, mesmo a que foi escrita por católicos; também é estranho o fato de que Maria era bem conhecida dos sacerdotes e o Novo Testamento nunca menciona isso. Uma sucessão de relatos de milagres usados como âncoras para a divinização de Maria. Fica evidente que obra não pode ter sido escrita antes dos evangelhos sinóticos e a linguagem revela o tom gnóstico e docetista de sua abordagem.

Contexto:
Isso tudo é muito estranho, porque Lucas no prólogo de seu evangelho (1.1-4) afirmou ter feito uma acurada investigação sobre os fatos da vida de Cristo a fim de tornar o seu evangelho crível; nenhum dos eventos usados nesse evangelho apócrifo é sequer referido em sua narrativa!

Uma razão clara para Lucas não ter conhecimento dessas declarações é que elas não existiam quando ele escreveu o seu evangelho no final do primeiro século. São esses evangelhos apócrifos que fizeram uso de suas pesquisas e não o contrário.

O propósito de Lucas nesse evangelho é exatamente combater qualquer narrativa da vida de Cristo que procure sobrexaltar a divindade de Cristo em detrimento de sua perfeita humanidade. Em sua perfeita humanidade, Cristo vive todas as experiências humanas que nós também vivemos. É assim que ele nos salva; é assim que reaprendemos a nossa humanidade com ele.

Proposição:
Nesse texto o Senhor Jesus responde para nós qual é a sua família e estabelece o princípio revolucionário do evangelho estabelecendo o princípio que rege a família cristã. Vejamos essa questão com três afirmações fundamentais presentes no texto:

I . A HUMANIDADE PERFEITA DE JESUS INCLUI UMA FAMÍLIA (V.19).

a) Quem são os irmãos de Jesus?
Quando Lucas disse em 2.7 que Jesus era o primogênito de Maria e não seu unigênito (como afirma ser a relação de Cristo com Deus em Jo 3.16) ficou claro que Jesus tinha irmãos nascidos de José e Maria. Ele tinha irmãos e irmãs, dentre os quais era o primogênito (Lc 2.7; Mt 13.55,56): “Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isto?” Uma tradição antiga diz que o nome de uma de suas irmãs era Salomé; um outro apócrifo egípcio do IV século intitulado "A História de José, o Carpinteiro" diz que se chamam Lisia e Lídia (cap. 2). Esse fato fica mais claro ainda quando lemos Marcos 3.31,32; Jo 2.12 (sua mãe e irmãos estavam dentre os convidados das bodas em Caná); Jo 7.3,5,10 (seus irmãos o instigam a buscar fama.

Logo, Jesus não viveu como filho único e superprotegido, mas sua infância e juventude aconteceram dentro de uma vida familiar humilde (carpinteiros), porém digna e em pleno acordo com a vontade de Deus.

b) Todos eles vieram ao evangelho (Jo 7.5 e At 1.14).
João 7 nos conta que seus irmãos o incitavam a buscar ser conhecido e alcançar fama. João nos diz que eles faziam isso porque ainda não criam nele (v.5). Depois é o próprio Lucas que nos informa que todos eles estavam com os apóstolos em Jerusalém ao lado de sua mãe Maria (At 1.14) o que dá testemunho de sua conversão. Paulo afirma ter estado com Tiago, o irmão do Senhor em Jerusalém, e que ele era um reputado coluna daquela igreja (Gl 1.19; 2.9). Ele mesmo, porém se apresenta como servo de Cristo em sua epístola (Tg 1.1). Judas apresenta-se na sua carta como servo de Cristo e irmão de Tiago (Jd 1.1).

O apóstolo Tiago irmão de João foi o primeiro dos apóstolos a ser morto sob a perseguição de Herodes (At 12.1,2). Tiago, filho de Alfeu e Maria (Mc 15.40), o outro apóstolo. A tradição antiga diz que ele foi pregar o evangelho na Pérsia e lá foi crucificado.

II. NA SUA HUMANIDADE JESUS CONHECE O POSITIVO E O NEGATIVO NA FAMÍLIA (V.20).

a) O contexto de Mateus e Marcos.
Lucas não revela o motivo da visita inesperada de sua mãe e irmãos. Marcos 3.21,22 dá a entender que o motivo foi a preocupação com Jesus à vista das acusações dos oponentes dele de que estava possesso de demônios e que até mesmo os seus amigos o consideravam fora de si. O afeto natural de sua mãe e irmãos e sua preocupação com sua sanidade física e mental os moveu a tentar retirá-lo da vida pública e providenciar um lugar de repouso e restauração.
William Hendriksen diz que essa interpretação é a mais generosa.

b) Eles querem te ver.
Nós sempre corremos o risco de colocar os laços familiares acima dos laços do evangelho e de nossa união com Deus e com Cristo. A família de Cristo, ainda que bem intencionada, procurava retirar Jesus de cena:
1. Talvez por vergonha. Reputação?
2. Talvez por precaução.
3. Talvez por incredulidade quanto à sua verdadeira vocação.
Quando o critério da relação familiar não é claro a imposição (de costumes; de comportamento etc) são apresentados pela imposição.
Jesus conhece o lado bom da família (preocupação, cuidado, provimento, intimidade familiar), mas conhece também o lado negativo (intromissão, imposição, coerção social etc).

III. MINHA FAMÍLIA SÃO OS QUE GUARDAM A PALAVRA DE DEUS (V.21).

a) Uma aplicação prática da parábola do semeador.
Mateus e Marcos colocam a parábola depois desse fato. A resposta de Jesus aponta diretamente para o ensino da parábola do semeador (8.15). A semente que caiu em boa terra é a que ouve a palavra e a obedece.

b) A palavra de Deus está acima de todos os nossos relacionamentos.
A nossa lealdade à palavra dada por Deus está acima de todos os nossos relacionamentos de parentesco. Todos os nossos relacionamentos devem ser medidos a partir da palavra de Deus.

É por essa razão que o evangelho dividiu e continua dividindo famílias. Porque muitos amam muito mais suas relações com o mundo inclusive as familiares do que a Deus. A aceitação do Evangelho muda radicalmente as nossas lealdades, porque elas serão estabelecidas pelo mandamento claro de Deus expresso em sua palavra.

Vejamos dois exemplos, um negativo e outro positivo:
 (1Co 5:7-13 ARA)
7 Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa, como sois, de fato, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado.
8 Por isso, celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade e da malícia, e sim com os asmos da sinceridade e da verdade.
9 Já em carta vos escrevi que não vos associásseis com os impuros;
10 refiro-me, com isto, não propriamente aos impuros deste mundo, ou aos avarentos, ou roubadores, ou idólatras; pois, neste caso, teríeis de sair do mundo.
11 Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais.
12 Pois com que direito haveria eu de julgar os de fora? Não julgais vós os de dentro?
13 Os de fora, porém, Deus os julgará. Expulsai, pois, de entre vós o malfeitor.


Por outro lado, assim como houveram perdas, haverão ganhos,
 (Marcos 10:28-31 ARA)
28 Então, Pedro começou a dizer-lhe: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos.
29 Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho,
30 que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna.
31 Porém muitos primeiros serão últimos; e os últimos, primeiros.

c) Nossa nova família são os santos que estão na terra.

 Salmo 16.3 = santos – notáveis - fonte de toda a alegria.
3 Quanto aos santos que há na terra, são eles os notáveis nos quais tenho todo o meu prazer.

 Provérbios 18.24= Há amigos que se tornam mais íntimos que irmãos.
24 O homem que tem muitos amigos sai perdendo; mas há amigo mais chegado do que um irmão.

 Romanos 12.10 = cordialidade – fraternidade – honra.
10 Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros.

 I Pedro 1.22,23 = “pela obediência à verdade”
Fraternidade não fingida – amabilidade sincera e intensa – reciprocidade/mutualidade.
Por que? Porque fomos resgatados MEDIANTE a palavra incorruptível de Deus.
22 Tendo purificado a vossa alma, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente,
23 pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente.


Conclusão:

Não há narração de reações.
Mas eu diria que o conceito é chocante: “Mãe para mim e irmão para mim, são todos os que obedecem à palavra de Deus” (tradução literal – Hendriksen).
Nos diálogos anteriores descritos por Lucas entre Jesus e os outros, Lucas quase invariavelmente narra a seguir suas reações. Mas aqui reina o mais completo silêncio.

Creio que é por causa da natureza completamente imprevisível do conceito. O evangelho nivela tudo e aproxima aqueles que jamais se aproximariam e divide aqueles que pensamos jamais se dividiriam. O EVAGELHO quebra todas as barreiras (familiares, sociais, étnicas, políticas, ideológicas, religiosas, todas... todas).

Por outro lado, sendo membros da família cristã, por que nos dividimos muitas vezes?
Porque nos preocupamos mais com as nossas famílias do que com o evangelho.
Porque amamos e odiamos mais as pessoas e seus pecados do que amamos o evangelho.
Porque não conseguimos entender e aceitar que o evangelho nos uniu em Cristo de uma forma muito mais íntima do que poderíamos conceber e aceitar (somos da família de Jesus – Ef 2.15). Não somos estranhos mais; não somos estrangeiros mais; não somos separados mais; não somos desconexos mais; mas somos irmãos em Cristo; filhos e filhas de Deus, o Pai!

Aplicações:

1. A seu tempo todos os irmãos de Cristo conheceram ao Evangelho (Jo 7.5 e At 1.14).
Isso nos dá esperança para com os nossos familiares. A vida na aliança nos dá a esperança de experimentar as bençãos da aliança.

2. A palavra de Deus é mandamento e orientação para a vida.
A Bíblia é a única regra de conduta dos cristãos.
Atente para isso antes de publicar qualquer coisa no seu facebook, blog, tumbrl, twither, Google groups, etc, etc, etc.

Atente para isso quando vir seus filhos fazendo coisas erradas e tiver medo de perdê-los para o mundo se corrigi-los. Na verdade o seu medo já é a prova de que perdeu; de que eles já não são seus filhos mais.
Atente para isso quando preferir defender a “honra” de sua família do que a verdade do evangelho.

O Senhor Jesus não desprezou a sua família, especialmente a sua mãe Maria. Na cruz ele, estando em agonia, pediu a João que a levasse para a sua casa e cuidasse dela como se fosse sua mãe (Jo 19.26,27).
Jesus não está dizendo que amar mais a palavra seja não amar nossos parentes, mas está dizendo que a forma correta de amar nossos parentes (especialmente pais e filhos) é fazê-lo através da palavra, praticando com eles, no seu relacionamento com eles essa palavra que veio de Deus!

3. O que fazer para enxergar e ser enxergado como membro da família de Cristo?
 Crer no evangelho e vir para a comunhão da Igreja – I Jo 1.3.
 Praticar e receber comunhão eficiente – Fm 7
a) Um amor que produz grande alegria.
b) Um amor que conforta nas tribulações.
c) Animar a fé dos outros continuamente.
d) Santidade – notabilidade – alegria nos outros.

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